Antonio Carlo, Meus companheiros, minhas dívidas

Já estávamos pelo final de 1976, de sorte que completara 22 anos de idade e, com o senso de responsabilidade de um pretenso adulto, senso muito acentuado pelo “desaparecimento” de uma geração imediatamente anterior à minha, fui encontrar-me com o atual deputado Ivan Valente, nosso “tio”, no auge dos seus 30 anos, num ponto clandestino e rumamos para um bar no catete. Não foi demorada a conversa. Eu levantara um problema. O texto da revista Pasado y Presente, nº43, escrito por “Antonio Carlo” me influenciara decisivamente. Era uma portentosa crítica ao Leninismo, O MEP (Movimento pela Emancipação do Proletariado, aliás ao chamá-lo de Movimento DE Emancipação do proletariado, o excelente historiador e figura humana ímpar, Jacob Gorender, comete um dos pequenos e raros erros do seu excelente livro “Combate nas trevas – a esquerda brasileira – das ilusões perdidas à luta armada”) era Leninista mas tinha duas coisas bem interessantes para mim, mesmo naquele final de 76. A mais importante era a sua auto definição como uma das fontes (o plural fazia toda a diferença) para a criação de um Partido dos Trabalhadores. A outra, sua determinação em rever os dogmas e desempoeirar a teoria marxista. Mas, Ivan deixou claro: Somos Leninistas e não há espaço para essa discussão entre nós. E conciliou: Podemos aceitar que você não se considere Leninista, continue entre nós, desde que não abra essa discussão interna.

Aceitei.

Imagino que pesou a falta de alternativa e a crença exagerada de que era necessário estar organizado para lutar contra a ditadura. Não me toquei na possibilidade da esquerda independente, provavelmente pelo dogma introjetado sobre o papel do revolucionário e pela pobreza teórica sobre o papel do indivíduo na história.

Boedo

Esquina da Avenida Boedo e San Juan, Buenos Aires

Não digo que me arrependo. Um amigo, Paulo Roberto, me alertou para a frase do mestre Yoda (star wars) “O futuro está sempre em movimento”. Impossível prever o futuro se tivesse recusado o acordo.  O futuro se moveu na direção da minha segunda prisão, em 1977, mas quem sabe? Poderia ter decidido voltar a Buenos Aires reencontrar a esquerda luxemburguista de lá e sido atropelado por um portenho bêbado na saída de uma noitada típica de tango na avenida Boedo, e lá falecer com os versos de Gardel ainda ressoando nas últimas conexões neurais
“Me voy, me voy a tierras extrañas.
Adios, caminos que he recorrido, rios, montes y quebradas.
Tapera donde he nacido”

Não, disso não me arrependo. Arrependo-me de não ter conversado com meus companheiros sobre a crítica ao leninismo, especialmente aos companheiros a quem assistia na Faculdade de Ciências Médicas da UERJ e aos operários navais de Niterói.

A muitos, pela distância que nos separou, jamais poderei me desculpar pessoalmente. Ficam públicas as escusas portanto. Aos que posso encontrar, procurarei encontros particulares e conversas sinceras.

A revista nº 43, tantas vezes lida foi perdida numa das muitas mudanças da vida. Reencontrar o texto do Antonio Carlo demorou. Apenas com a expansão da internet, há uns três ou quatro anos atrás, consegui localizá-lo. Imprimi e reli. A parte onde periodiza o pensamento de Lênin e o critica continua me parecendo excelente. A parte mais otimista, no entanto, a parte onde deposita uma fé na transformação socialista capitaneada por um movimento quase espontâneo da classe operária parece-me hoje datada e ultrapassada. Faltou o lembrete do mestre Yoda, o futuro está sempre em movimento.
Gostaria de saber a trajetória de Antonio Carlo, provavelmente um pseudônimo. Passado e presente. Devo muito a ele, a ousadia de questionar os ídolos da minha tribo. Fica aqui o texto salvo, caso o link do Cebrap suma.

a_concepcao_do_partido_revolucionario

A reflexão historiográfica sobre os rumos do bolchevismo, especialmente na URSS, foi muito aprofundada de lá para cá. Pouca repercussão entre a esquerda brasileira, é verdade, constituindo uma honrosa exceção a Revista Fevereiro, especialmente o filósofo político Ruy Fausto, embora não o acompanhe em várias de suas análises sobre o Brasil e a América Latina. É um mundo complicado. Querer ler a última página e selar um entendimento é uma ilusão.

“Não estamos perdidos. Ao contrário, venceremos se não tivermos desaprendido a aprender.”

 

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Publicado em Política
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