Encantamento pela Rosa

 ‘A política é um servir a Baal idiota, em que toda a existência humana, vítima de seu próprio dilaceramento , da sua atrofia espiritual, se sacrifica. Se eu acreditasse em Deus, estaria convencida de que ele nos castigaria severamente por este tormento.’ Carta a Leo Jogiches, datada de 20.10.1905.

Vivemos um momento no Brasil em que a militância política se renova e chama muitos de nós, comprometidos com uma compreensão da organização da vida em sociedade de cunho democrático, de esquerda, progressista. Porém, mesmo agora, ao enfrentar o fascismo e o golpismo brasileiros, há lembranças de Rosa Luxemburgo que merecem destaque.

Rosa Luxemburgo, para muito além dos seus trabalhos teóricos e de agitação política, deixou um legado singular no campo confessional, humano, diria que não demasiadamente humano mas na precisão do ser humano. Esse legado vital, ao invés de teorético, se expressa com força em dois tipos de escritos que ela deixou.

Num primeiro grupo, do qual transcrevo trechos de 3 cartas para destinatários diferentes em anos distintos , ela, que nunca abandonou o campo de batalha político, demonstra a vontade pela vida acima do partido, dos camaradas, da política.

Há, pelo menos havia, entre militantes da esquerda uma certa crença de que a política seria a essência do viver, seria o que transformaria uma vida sem sentido numa vida plena, ao menos a partir do momento mágico em que a pessoa se tornasse “consciente”. A partir desta espécie de nascimento, a vida deveria ser dedicada prioritariamente à luta política. Isso se manifesta, e se auto denuncia, de várias formas, inclusive pela linguagem “massa atrasada”, “massa avançada”, “consciência”.  Ou pelos conhecidos versos de Brecht “Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.”, que não me seduzem exatamente porque comungo dos sentimentos de Rosa. Imprescindível é viver,  deixar viver e florescer a diversidade. Bom que haja os políticos abnegados de uma vida inteira dedicada, mas não estão acima de ninguém por isso, ao contrário, exatamente pela dedicação à política precisam entender que outras opções são tão nobres, válidas ou precisas quanto a sua. Caso contrário, os “imprescindíveis” podem se transformar em  “guias geniais” que tiranizam a vida alheia.

Ao expor esse sentimento há quem reaja como se estivesse defendendo a alienação. Sinto muito, querido, penso que a alienação está no espelho.

O LEGADO LIBERTÁRIO
O outro legado espetacular de Rosa é a oposição precoce ao autoritarismo que surfava na vaga vitoriosa da revolução bolchevique. O sentimento de vitória esmagadora opera milagres. No Brasil quase todo o movimento social e operário era anarquista. Quase todos os anarquistas viraram bolcheviques, inclusive a formação do Partido Comunista do Brasil (PCB) contou com uma maioria de fundantes que vinha dos quadros anarquistas. Delineou-se uma época em que todos os sacrifícios pareciam imprescindíveis para o nascimento de um “homem novo”, todos os escrúpulos poderiam ser jogados às favas , Rosa escreveu alertas que ressoam como uma música boa e sobreviveram aos escombros da ditadura bolchevique  “A liberdade apenas para os partidários do governo, apenas para os membros do partido, por muitos que sejam, não é liberdade. A liberdade é sempre a liberdade para o que pensa diferente.”

“Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e uma liberdade de reunião ilimitadas, sem uma luta de opiniões livres, a vida vegeta e murcha em todas as instituições públicas, e a burocracia torna-se o único elemento ativo”.

INTERMEZZO
“Não estamos perdidos. Ao contrário, venceremos se não tivermos desaprendido a aprender.”

O LEGADO DA VIDA

‘Dentro de mim sinto-me bem mais em casa num pequeno canto de jardim como aqui, ou no campo, sentada na grama, cercada de zangões que … num congresso do partido. Posso dizer-lhe tudo isto tranquilamente, você não vai desconfiar de que estou traindo o socialismo. Você sabe, espero, apesar de tudo, morrer no meu posto, numa batalha de rua ou nos trabalhos forçados. Mas o meu eu mais profundo pertence antes aos meus pardais que aos “camaradas” ‘
Carta a Sonia Liebknecht, datada de 2.5.1917.

‘Aliás, como sempre na vida, estou em marcante contradição com o que faço. Como pretendo fundar novamente o jornal, tenho cinco reuniões por semana e trabalho pela futura organização. Mas apesar disso, por dentro, nada mais quero a não ser calma e renúncia, para sempre, a toda esta enorme atividade sem sentido.’
Carta a Kostia Zetkin, datada de 24.12.1914.
‘Ontem à noite, por uma estranha coincidência, peguei a caixa com as ultimas cartas de mamãe e papai e cartas antigas de Andzia e J6zio [ irmãos ]. Li-as todas, chorei ate os olhos ficarem inchados e fui para a cama desejando nunca mais acordar. Particularmente odiosa tomou-se-me toda a ‘politica’. Por causa dela … não respondia as cartas de mamãe e papai durante semanas inteiras. Nunca tinha tempo para eles . por causa destes trabalhos de abalar 0 mundo (e isso continua ate hoje). Meu ódio voltou-se contra ti. porque toste tu que me acorrentaste para sempre a esta maldita politica. (Lembro-me de ter seguido 0 teu conselho para não deixar a sra. Lubeck ir a Weggis. pois poderia perturbar 0 acabamento de um artigo de marcar época para os Sozialistische Monatshefte. e ela vinha com a noticia da morte da minha mãe !). Digo-te tudo ista de coração aberto. Hoje passeei ao sol e sinto-me um pouco melhor. Ontem estava quase a desistir para sempre, de toda esta maldita politica, ou melhor, da cruel paródia da nossa vida ‘política’, e mandar o mundo para o inferno. A política é um servir a Baal idiota, em que toda a existência humana, vítima de seu próprio dilaceração, da sua atrofia espiritual, se sacrifica. Se eu acreditasse em Deus, estaria convencida de que ele nos castigaria severamente por este tormento.’
Carta a Leo Jogiches, datada de 20.10.1905.

E AGORA?

Sigo com interesse quem procura manter e desenvolver os escritos de Rosa, bem mais amplos do que aqui abordado. Exemplo: http://www.rosalux-nyc.org/  ou https://www.facebook.com/RosaluxSaoPauloBuenosAires/?fref=ts

Mas não me filio a uma corrente “Luxemburguista”, creio que Rosa também não.

Em todo caso, devo muito a um autor de nome Antonio Carlo, provavelmente um pseudônimo que, apesar de muito pesquisar, não consegui identificar. Parece-me que Antonio Carlo foi muito influenciado por Rosa. Ele fez um esforço fabuloso em 1973, Argentina, Revista Pasado y Presente, nº 43, para sistematizar o pensamento político de Lênin sobre o partido político. Neste estudo “A concepção do partido revolucionário em Lenin” Antonio Carlo mostra várias fases e contradições na obra de Lênin. Sua leitura exerceu um papel fundamental para me afastar do leninismo. Mas isso é uma outra história que merece uma confissão própria. Dívida antiga, com as escusas necessárias a algumas pessoas.

Tinha iniciado a tradução do texto da Pasado y Presente, em espanhol, para o português. No entanto, descobri que já há uma tradução. Segue o link, meus comentários seguirão no outro post aludido acima.

 

 

Pasado y Presente

https://www.cebrap.org.br/v2/files/upload/biblioteca_virtual/a_concepcao_do_partido_revolucionario.pdf

Voltando à Rosa

Rosa JazigoRosa Luxemburgo

https://www.youtube.com/watch?v=wLAURi-Zx2c (legenda em português)

Rosa Luxemburgo SPD

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Publicado em Política
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