A filosofia da violência

Libertem o Brasil

“Para combater o mal, o revoltado, já que se julga inocente, renuncia ao bem e gera novamente o mal.”

“A democracia não é o melhor dos regimes. É o menos mau. Experimentamos um pouco de todos os regimes e agora podemos compreender isso. Mas esse regime só pode ser concebido, realizado e sustentado por homens que saibam que não sabem tudo, que se recusem a aceitar a condição proletária e nunca se conformem com a miséria dos outros, mas que recuse, justamente, a agravá-la em nome de uma teoria ou de um messianismo cego.”
Albert Camus, novembro de 1948

https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=KktR7Xvo09s

Voltaire Schilling:  

“Entornando um copo de vinho com Albert Camus, num daqueles bons cafés de Paris,  Sartre comunicou ao amigo que em breve sairia uma crítica bem pesada na sua revista Les Temps Modernes contra o seu último livro L´Homme révolté, o Homem Revoltado. Haviam se encontrado na rua indo para um  destino comum. Nunca mais o fizeram. O ensaio de Camus, aparecido em 1951, há 50 anos,  provocara um desconcerto geral em meio à esquerda francesa.

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Tempos de descolonização 

E não era para menos. Naqueles tempos quentes da guerra fria, com Mao Tse tung recém chegando ao poder em Pequim e os norte-americanos ameaçando explodir a Coréia, e quiçá a China Popular,  com bombas atômicas, como era o desejo do general MacArthur, o famoso escritor  deu-se ao desplante de repudiar a revolução. Foi um pandemônio.

Os amigos rompem
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Jean Paul Sartre

O petardo contra ele foi estrondoso. Sartre, alegando razões de amizade, passou a tarefa para um dos seus próximos, um tal de Francis Jeanson, que  destratou Camus em vinte páginas. Ele respondeu. Sartre então entrou na liça, em defesa de Jeanson. “Nossa amizade”, escreveu ele, “não era fácil, mas vou sentir a falta dela. Se você a quebra hoje, é, sem dúvida, porque ela devia um dia ser quebrada …, também a amizade é totalitária: é necessário o perfeito acordo ou o corte de relações.” Onze anos de convivência entre os dois  foram-se em outras trinta páginas do  Les Temps, nº 82, de agosto de 1952. Na verdade,  o acusatório de Camus não era tanto contra a revolução, mas sim contra sua inoperância, denunciando-lhe a inutilidade.

A Inutilidade da Revolução
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Os tumultos de 1848

De que servira à França, indagara ele,  ter tido três outras revoluções desde 1789, todas elas sangrentas, se os escandinavos e os ingleses, sem grandes tumultos, pelas políticas de socialistas moderados,  tinham atingido um alto padrão de vida, bem superior ao dos franceses? As crítica de Camus aos destemperos das revoluções não pararam por aí, visto que acreditava  que os seus líderes no poder, mais tarde ou mais cedo,  se tornavam repressores ou heréticos, policiais ou loucos!

O danoso daquilo tudo é que eles adotavam uma política de crimes justificados. Prendiam, interrogavam,  confinavam e, em nome de um profundo amor pela humanidade, fuzilavam. Convictos de que aqueles a quem despachavam eram ervas daninhas que  precisavam extirpar do canteiro socialista para que, mais tarde, no futuro, no amadurecer da planta, ela vicejasse com todo o vigor. Enquanto isto,  os campos de concentração  e o tiro no pescoço eram os herbicidas  que eles se viam obrigados a espargir.

A traição dos intelectuais
Irritava-o ainda o estrabismo dos intelectuais comprometidos com a esquerda que eram incapazes de formular sequer uma só crítica ao regime soviético. Podia-se ser rebelde contra tudo, menos contra Moscou! O que lembrava o sermão em forma de livro de Julien Benda, La Trahison des Clercs (A Traição dos Clérigos, de 1927), que falava do abandono deles aos princípios da razão, seduzidos e apaixonados pelas religiões terrenas (as ideologias), que abraçavam.

O desacerto de Camus com o socialismo milenarista, com os apocalípticos que viam sinais da crise derradeira do capitalismo a cada dobrar de esquina, vinha de mais longe, do final da guerra. Ainda que ele fosse um dos homens-chave do célebre Combat, o jornal da Resistência, que chegara a façanha de vender 300 mil exemplares ainda 1943, numa França ocupada, rapidamente o autor de A Peste atinou, já em 1944, que a Resistência não iria desembocar na Revolução Socialista ambicionada por muitos militantes, particularmente pelos maquisards de esquerda. Acreditava sim numa Revolução Democrática que impusesse novos relacionamentos sociais e humanos, mas nada que dirigido ou controlado pelos comunistas.

Em busca de uma Terceira Via
Porque, então, ensimesmou, ao invés da pregação a favor da revolução violenta, não encontrar uma solução de compromisso entre “a liberdade e a justiça”? Uma sociedade onde houvesse liberdade para que todos tivessem as mesmas oportunidades e onde qualquer um fosse respeitado nos seus direitos mais comezinhos (de certo modo, ao pensar assim, ele antecipou-se de longe à teoria da Terceira Via de Anthony Giddens e de Tony Blair, já devidamente sepultada).

Afinal, que se encontrasse um denominador comum entre a economia coletivista e a política liberal, e que, fundamentalmente, os socialistas, este “proletariado de bacharéis”, parassem de se imaginar como seres ungidos divinos da reforma social. Que calçassem as sandálias da humildade. Daí entender-se o titulo do seu provocativo artigo A Democracia: exercício de modéstia, 1948.

Que aqueles aventureiros da dialética – muitos dos personagens dos “Mandarins” de Simone de Beauvoir -, cessassem de clamar pela revolução em abstrato, atingida pelo cálculo, feita por gente ressentida que só conduzia ao domínio “do rancor e tirania”, e voltassem a ser de carne e osso como todo mundo.

E, acima de tudo, resistissem à tentação de praticar massacres e de querer hastear a bandeira da liberdade no centro dos campos corretivos e de trabalhos forçados, visto que o Estado que ambicionavam, fosse por influencia de Marx, Hegel ou Nietzsche, desandava num “Estado terrorista”. Entre outros motivos porque “Os nossos criminosos… são adultos, e o seu álibi irrefutável é a filosofia que pode servir para tudo, até para transformar os assassinos em juízes.” (O Homem Revoltado – Introdução).

Atrás da revolução relativa
Buscassem, pois, a revolução relativa, sem matanças, sem rios de sangue escorrendo pelas ruas, e sem as abomináveis justificações pelas mortes em massa. Sartre acreditava que era possível, purgando a água suja do stalinismo, salvar-se a criança dentro da bacia do socialismo. Camus, desencantado, enxergava sentando bem no meio dela um pequeno monstro, parido pelo terror revolucionário.

“O poder é triste no século 20”, concluiu ele. Quando Camus morreu num estúpido acidente de automóvel, em janeiro de 1960, Sartre, no necrológico, o considerou um dos grandes moralistas da tradição literária francesa, mas nunca mais tinham se aproximado.

O efeito Koestler
Para Ronald Aronson, um estudioso norte-americano do panorama do existencialismo francês daquela época, o fator que muito impulsionou a virada de Camus para um anticomunismo mais radical deveu-se a presença de Arthur Koestler, um refugiado húngaro que passara a frequentar a trupe que cercava Sartre e Simone e que alcançara a celebridade com um livro que antecipou os começos da guerra fria: Darkness at Noon (Do zero ao infinito), aparecido em 1941, que relatava a capitulação ficcional de Bukharin durante os Processos de Moscou (1936-1938), seguido de outro, intitulado Le Yogi et le Commissaire (O Ioga e o Comissário), de 1945, onde denunciava caminho violento tomado pelos comunistas.

Koestler era o exemplo vivo do intelectual renegado, um ex-agente comunista que durante a prisão na Guerra Civil da Espanha, desiludido com a causa, assumira uma posição crescentemente anticomunista, efeito que levou ao escritor franco-argelino, seu amigo recente, a afirmar que “comunismo = assassinatos”.

A influência dele sobre Camus fez por acelerar a sua mutação. O romancista que fora um militante do Partido Comunista na sua Argélia natal (1936-1938), um ativista da Resistência, o tão admirado homem engajado de Sartre, começou a se desengajar no após-guerra, procurando outro caminho que não o levasse a aliar-se ao comunismo, como Sartre terminou fazendo.

Em verdade, a postura que ele assumiu era um tanto irreal ou mesmo utópica devido à dimensão das forças em crescente colisão, a do Bloco Capitalista-Ocidental contra o Bloco Comunista do Leste. Rivalidade que envolveu o mundo e o ameaçou durante anos com um apocalipse atômico. Naquela situação era impossível haver “uma terceira posição” que conseguisse permanecer equidistante deles.

Tenha-se em conta o medo que a Guerra da Coréia indiretamente provocou na população parisiense, entre 1950 e 1952. Muitos passaram a temer que com o acirramento do confronto no extremo-oriente, os soviéticos em represália à intervenção norte-americana comandada pelo general MacArthur, poderiam invadir a França. Francine, a mulher de Camus, confessou à Simone de Beauvoir que, se tal acontecesse, ela se veria obrigada a matar seus dois filhos e se suicidar, pois não poderia suportar viver “sob os vermelhos”. Os alunos de Simone, por sua vez, juram fazer um “pacto de morte” pelo mesmo motivo. A geração que sobreviera a Hitler não queria entregar-se a Stalin. Este, pois, era o clima que cercou a polêmica.

Seja como for o desentendimento entre Camus e Sartre, teve uma conotação universal, resumindo os conflitos da inteligência ocidental no século 20 (pelo menos desde 1917). Afinal, ao longo do século, todos os seres pensantes foram chamados a se colocarem a favor ou contra o comunismo, da mesma forma que ocorrera quatro séculos antes no Ocidente por ocasião da Reforma Religiosa no começo do século 16. Fato que dissolveu o Partido dos Humanistas da época do renascimento, forçado a abraçar a ortodoxia católica ou a dos protestantes.

Nem o afeto e admiração recíproca que ambos sentiam um pelo outro resistiu à pressão da Guerra Fria. Camus somente tinha olhos para os crimes de Stalin e para os desatinos da esquerda, enquanto Sartre insurgiu-se contra a guerra colonialista que a França movia primeiro na Indochina (1945-1954) e depois na Argélia (1956-1961) e também contra os Estados Unidos que lhe dava apoio.

O resultado disso é que Camus tendia a silenciar frente aos desmandos e atrocidades praticadas pelo colonialismo, enquanto Sartre, ao contrário, fechava os ouvidos para a denúncia dos campos forçados soviéticos, ao Processo Slansky, à “conspiração dos médicos”, ao fuzilamento dos trabalhadores alemães alçados contra os soviéticos em Berlim, em 1953.

Somente afastou-se dos comunistas em 1956, com o famoso ensaio Le phantome de Stalin(O fantasma de Stalin), escrito em repúdio à invasão da Hungria pelo Exército Vermelho. Numa entrevista ao L’Express anunciou: “Eu estou rompendo, com pesar, mas totalmente, meus laços com meus amigos escritores soviéticos que não denunciam (ou não podem denunciar) o massacre na Hungria. Nós não mais podemos qualquer amizade com a facção dominante da burocracia soviética”.

Envolvidos na Guerra Ideológica do Século, Camus e Sartre terminaram mergulhando fundo nela, pondo fim a uma das mais produtivas amizades intelectuais da literatura francesa do século 20.

Publicado em Política
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