Há crimes no Mensalão. Há crimes no Mentirão.

No dizer do hoje blogueiro de extrema direita, Augusto Nunes, promovido pelos tucanos a apresentador do Roda Viva,  “Já que ficam mais sensatos com a faca no pescoço, os ministros do Supremo devem voltar a sentir a carótida afagada pelo fio da lâmina imaginária.”

Crimes apurados na AP 470, para alguns o Mensalão, para outros o Mentirão, existiram e foram confessados. Mas o que o STF decidiu não foi pela narrativa dos Autos mas sim pela narrativa da mídia.

Jamais pensei que em plena democracia o STF se dobraria ao brado da turba mediática. Condenações, com provas, é claro que haveriam. Condenar sem provas era inacreditável. Errei feio. Eventos passados me induziram ao erro.

O STF já errou, por exemplo, ao aprovar a extradição da judia Olga Benário para a Alemanha nazista; ao relatar que a anistia no Brasil foi ampla, geral e irrestrita; ao aceitar o AI-5, e por aí vai. Inédito, no entanto, a condenação penal sem provas.

Sentiram a faca no pescoço e continuam a sentir a carótida ameaçada, pelo que descrevem os repórteres do Estadão , tal qual relatado pelo Paulo Moreira Leite no seu Blog  , e que reproduzo mais abaixo.

Muitos acreditam que eles estão preocupados com a sua biografia, em como serão vistos pelos seus pares do mundo jurídico no futuro.  Depois de ouvi-los, alguns votos inacreditáveis de tão toscos, creio que não. Afinal, quem se lembra do nome dos que extraditaram Olga Benário, dos que mentiram sobre anistia ampla, geral e irrestrita, dos que se curvaram ao AI-5?

Aposto que eles seguirão o trecho do hino nacional “Paz no futuro e glória no passado ” A paz do esquecimento e a glória da Toda Poderosa Organizações Globo?

 

A seguir o texto do Paulo Moreira Leite:

Às vésperas da retomada do julgamento da Ação Penal 470, quando o STF irá examinar os recursos dos 25 condenados, o ambiente no tribunal é descrito da seguinte forma por Felipe Recondo e Debora Bergamasco, repórteres do Estado de S. Paulo, com transito entre os ministros:

“(…) há ministros que se mostram ‘arrependidos de seus votos’ por admitirem que algumas falhas apontadas pelos advogados de defesa fazem sentido. O problema (…) é que esses mesmos ministros não veem nenhuma brecha para um recuo neste momento. O dilema entre os que acham que foram duros demais nas sentenças é encontrar um meio termo entre rever parte do voto sem correr o risco de sofrer desgaste com a opinião pública.”

É preocupante e escandaloso.

Não faltam motivos muito razoáveis para um exame atento de recursos. Sabe-se hoje que provas que poderiam ajudar os réus não foram exibidas ao plenário em tempo certo. Alguns acusados foram condenados pela nova lei de combate à corrupção, que sequer estava em vigor quando os fatos ocorreram – o que é um despropósito jurídico. Em nome de uma jurisprudência lançada à última hora num tribunal brasileiro, considerou-se que era razoável “flexibilizar as provas” para confirmar condenações, atropelando o direito à ampla defesa, indispensável em Direito. Centenas de supressões realizadas pelos ministros no momento em que colocavam seus votos no papel, longe das câmaras de TV, mostram que há diferença entre o que se disse e o que se escreveu.

O próprio Joaquim Barbosa suprimiu silenciosamente uma denúncia de propina que formulou de viva voz, informação errada que ajudou a reforçar a condenação de um dos réus, sendo acolhida e reapresentada por outros ministros.

Eu pergunto se é justo, razoável – e mesmo decente – sufocar esse debate. Claro que não é.

É perigoso e antidemocrático, embora seja possível encher a boca e dizer que tudo o que os réus pretendem é ganhar tempo, fazer chicana. Numa palavra, garantir a própria impunidade.

Na verdade estamos assistindo ao processo em que o feitiço se volta contra o feiticeiro. E aí é preciso perguntar pelo papel daquelas instituições responsáveis pela comunicação entre os poderes públicos e a sociedade – os jornais, revistas, a TV.

O tratamento parcial dos meios de comunicação, que jamais se deram ao trabalho de fazer um exame isento de provas e argumentos da acusação e da defesa, ajudou a criar um clima de agressividade e intolerância contra toda dissidência e toda pergunta inconveniente.

Os réus foram criminalizados previamente, como parte de uma campanha geral para criminalizar o regime democrático depois que nos últimos anos ele passou a ser utilizado pelos mais pobres, pelos eternamente excluídos, pelos que pareciam danados pela Terra, para conseguir alguns benefícios – modestos, mas reais — que sempre foram negados e eram vistos como utopia e sonho infantil.

(A prova de que se queria criminalizar o sistema, e não corrigir seus defeitos, foi confirmada pelo esforço recente para sufocar toda iniciativa de reforma política, vamos combinar.)

No mundo inteiro, os tribunais de exceção consistem, justamente, num espetáculo onde a mobilização é usada para condicionar a decisão dos ministros.

“Morte aos cães!”, berravam os promotores dos processos de Moscou, empregados por Stalin para eliminar adversários e dissidentes.

Em 1792, no Terror da Revolução Francesa, os acusados eram condenados sumariamente e guilhotinados em seguida, abrindo uma etapa histórica conhecida como Termidor, que levou à redução de direitos democráticos e restauração da monarquia.

No Brasil de 2013, a pergunta é se os ministros vão se render ao medo.

Augusto Nunes, blogueiro da Veja, promovido pelos tucanos a apresentador do Roda Viva, escreveu: “Já que ficam mais sensatos com a faca no pescoço, os ministros do Supremo devem voltar a sentir a carótida afagada pelo fio da lâmina imaginária.”

Publicado em Política
  • Crescimento de Lula coloca luta de classes no centro da conjuntura, diz André Singer
    Categoria:  Artigos Jornal GGN - O crescimento da candidatura de Lula recolocou a luta de classes no centro de debate novamente, avalia o cientista político André Singer. Em artigo na Folha deste sábado, Singer apresenta os números de pesquisas de opinião que mostram o auge da impopularidade de Lula e retomada da boa avaliação entre os eleitores das classes […]
  • Juiz concede autorização definitiva para psicólogos aplicarem "cura gay"
    Categoria:  Saúde Por Felipe Pontes Da Agência Brasil O juiz Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara Federal de Brasília, decidiu hoje (15) tornar definitiva a decisão liminar (provisória) que havia proferido em setembro deste ano, autorizando psicólogos a atenderem eventuais pacientes que busquem terapia para mudar sua orientação sexual. A decisão garante […]
  • Por que a mídia de direita ataca Gilmar Mendes. Por Eugênio Aragão 16/12/2017
    POR EUGÊNIO ARAGÃO, ex-ministro da Justiça Notícia de jornal e de hebdomadários é que nem jabuti em árvore. Não chega sozinho lá. Alguém ali o coloca. Para entender noticiário é preciso conhecer a história por detrás dele. Há sempre uma razão para ter este ou aquele título, este ou aquele lead, esta ou aquela abordagem. […] O post Por que a mídia de direita […]
    Diario do Centro do Mundo
  • VÍDEO: advogado que grampeou Moro diz em depoimento que Youssef e Janene tinham dinheiro enterrado em contêineres 16/12/2017
    O advogado Roberto Bertholdo depôs como testemunha no STF no âmbito de uma ação penal na qual o deputado federal Nelson Meurer (PP-PR) é réu. Meurer é acusado pela Procuradoria Geral da República de receber dinheiro através da atuação do ex-deputado federal José Janene, morto em 2010, e do doleiro Alberto Youssef. Bertholdo, que advogou […] O post VÍDEO: adv […]
    Kiko Nogueira
  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
  • A despedida do Balaio do Kotscho
    Adeus, amigos. Chegou a hora da despedida do Balaio do Kotscho aqui no R7, que publicou meu blog desde 2011. Foram quase seis anos e meio de convívio quase diário, de domingo a domingo (neste último, escrevi sobre o grande Rolando Boldrin, o "Sr.... Continue lendo
  • Última semana para a “reforma política”: eles só querem grana
    Acaba esta semana, no dia 7, o prazo para o Congresso Nacional terminar sua "reforma política" para que as mudanças propostas possam valer já na eleição de 2018. Como os dias úteis das excelências costumam terminar na quinta-feira, o tempo urge... Continue lendo
  • Tacla Duran diz que pode ser ouvido como testemunha 15/12/2017
    Ex-advogado da Odebrecht Rodrigo Tacla Duran diz que pode ser ouvido como testemunha na Lava Jato. Ele afirmou isso aos advogados do ex-Presidente Lula na presença de um notável. Assista a íntegra do depoimento O post Tacla Duran diz que pode ser ouvido como testemunha apareceu primeiro em Blog da Cidadania.
    eduguim
  • Para economizar, Banco Mundial quer que Temer acabe com o ensino superior gratuito 22/11/2017
    Via Estadão Conteúdo em 21/11/2017 Para cortar gastos sem prejudicar os mais pobres, o governo deveria acabar com a gratuidade do ensino superior. Essa é uma das sugestões apresentadas no relatório “Um ajuste justo – propostas para aumentar eficiência e equidade do gasto público no Brasil”, elaborado pelo Banco Mundial. A ideia é que o […]
    bloglimpinhoecheiroso
  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
  • Random Screening
  • Economic Update: Different Economics, Different Policies
    This week's episode includes discussions of parental leave policies in the UK, the fining of Citibank for its abuse of student borrowers, the self-critical ads now being aired by tobacco companies and Jeff Bezos's obscene wealth. We also address Marxian economics and UK Labor Party policy initiatives. Download the show To see more stories like this […]

Parece que o URL do site WordPress foi configurado incorretamente. Verifique o URL nas configurações do widget.