Sem medo de perder a eleição

O programa econômico da Social Democracia de Esquerda no Brasil é:

a) operar a Selic ao nível da inflação, como fazem os demais países; b) emitir moeda para pagar os juros da dívida federal, como fazem os países desenvolvidos e; c) deixar o câmbio flutuar, sem interferência do BC.

Com essas medidas se poderá: a) economizar os recursos hoje destinados ao pagamento de juros do governo federal (R$ 16 bilhões em média por mês); b) devolver às empresas o poder competitivo que foi retirado com o câmbio artificialmente valorizado pelo BC; c) equilibrar as contas externas e; d) crescer de forma sustentada, com fundamentos macroeconômicos sólidos.

Seria impossível aos países europeus construir o Estado de Bem Estar Social se pagassem taxas de juros sobre a dívida pública como as do Brasil ( “… na fase FHC: Gustavo Loyola 22,6%, Gustavo Franco 24,6%, Armínio Fraga 19,5%, Henrique Meirelles 14,9% e Alexandre Tombini, até agora, 9,6%”).

É impossível aos estados europeus que estão a pagar taxas de juros na casa dos 7% (Espanha, Portugal, Irlanda, Grécia, Itália) fazê-lo sem retirar parte da sua proteção social.

A grita impressionante da grande mídia a favor do lobby para aumentar a taxa de juros que remunera generosamente os rentistas nacionais e internacionais contou com um ambiente propício, a alta dos alimentos. Dava para associar as dificuldades da maioria da população com a tese de que o governo não combatia a inflação (no pequeno universo da minha observação direta, amigos e conhecidos majoritariamente da classe média, o incômodo com a baixa remuneração das suas aplicações financeiras, o alto custo dos alugueis na zona sul do rio e a aprovação da PEC das domésticas, geraram um clima próximo à histeria).

O governo federal se rendeu, sem travar a luta política.  No caso, a disputa da narrativa sobre o processo inflacionário e o peso da gestão da dívida pública. Não se trata de algo banal, como é abordado pela extrema esquerda, que limita aos banqueiros os ganhos rentistas. Essa disputa só pode ser ganha se travada na TV. Propagandas e participação em shows de amenidades de nada servem. Tampouco ir conversar com a Miriam Leitão e fingir que todos querem pouca inflação e emprego alto, que trata-se apenas de uma questão técnico gerencial.

Infelizmente não é uma questão técnico gerencial. É uma questão de conflito de interesses, de conflito distributivo da riqueza da nação.

O dados e a síntese do programa social democrata de esquerda foram retirados do texto abaixo, de Amir Khair, publicado no jornal Estadão em 28/07/2013:

“Desde 1980 é registrada a inflação pelo IPCA. Nesses 33 anos, em apenas duas ocasiões a inflação de alimentos foi maior que a do IPCA durante mais de onze meses. Isso ocorreu de junho de 2007 a agosto de 2008 (14 meses) e de maio de 2012 a abril deste ano (12 meses). No final dessas duas ocasiões, o IPCA girou no limite do teto da meta de inflação de 6,5%. O gráfico ilustra a evolução ocorrida na inflação de alimentos e no IPCA nesta última ocasião, explicando o fenômeno inflacionário.

Caso não tivesse ocorrido essa elevação nos alimentos, a inflação nos últimos doze meses teria ficado abaixo do centro da meta de 4,5%, mais precisamente em 3,5%.

Assim, da mesma forma que os preços dos alimentos subiram, elevando a inflação, começaram a cair desde fevereiro, puxando a inflação para baixo e prognosticam inflações baixas nos próximos meses, possivelmente até deflação.

Ao que tudo indica, isso não foi levado em consideração pelo Banco Central (BC), que iniciou a série de elevações da Selic em 18 de abril (?), ao mesmo tempo em que a inflação de alimentos vinha caindo, como ilustra o gráfico. Foi mais um erro de diagnóstico do BC, cedendo à pressão do mercado financeiro. Como a inflação vai recuar, puxada pela redução dos preços dos alimentos, não será de estranhar se as análises do mercado financeiro atribuírem a queda do IPCA às elevações da Selic. Vale observar.

Expansão fiscal. Outro fato ligado à inflação chama a atenção. Nas últimas atas do Comitê de Política Monetária (Copom), tem sido atribuída parte da inflação à expansão fiscal do governo federal. Assim, o BC responsabiliza o governo por parte da inflação. E o governo, tensionado pelo mercado financeiro e pelo BC, acabou cedendo e prometeu na segunda-feira uma economia de despesas de custeio de R$ 10 bilhões, além da anterior que já tinha sido feita, de R$ 28 bilhões.

Interessante observar que o BC, ao criticar o governo, parece ignorar que ele, também, gera expansão fiscal ao elevar a Selic, através do aumento da despesa com juros. Cada vez que sobe a Selic, há um rearranjo dos portfólios dos aplicadores em títulos, balizando suas aplicações pelo novo nível da taxa. Assim, a alteração da Selic impacta não apenas os títulos atrelados a ela, mas com o processo de rearranjo, o impacto é geral sobre todos os títulos. A dívida em títulos é de R$ 2,6 trilhões. Assim, a elevação ocorrida de 1,25 pontos (8,50 menos 7,25) sobre R$ 2,6 trilhões dá R$ 33 bilhões por ano.

Ocorre que essa expansão fiscal vai ser maior. A previsão do mercado financeiro é que a Selic vai continuar subindo (???) a 9,25% até outubro, ou seja, uma elevação de dois pontos. Admitindo que a dívida não mudasse, o que é uma hipótese conservadora, a expansão fiscal causada pelo BC poderá atingir R$ 52 bilhões (!) por ano.

Vale observar, também, que, com a retomada das elevações da Selic, o mercado financeiro, que antes criticava o BC, passou a elogiá-lo, argumentando que ele passou a “ancorar as expectativas” dos agentes econômicos. O mercado financeiro só usa essa expressão quando é para elevar a Selic. Caso contrário, criticam o BC, afirmando que está desancorando as expectativas.

Política econômica. As políticas econômicas praticadas pelos vários governos têm como traço marcante não o desgastado tripé, mas a política de taxas de juros básica e ao tomador muito acima do padrão internacional. Vale registrar a Selic média ocorrida nas gestões dos diferentes presidentes do BC. Os três primeiros comandaram o BC na fase FHC: Gustavo Loyola 22,6%, Gustavo Franco 24,6%, Armínio Fraga 19,5%, Henrique Meirelles 14,9% e Alexandre Tombini, até agora, 9,6%.

Caso possa ocorrer nova política econômica, será necessário que se apoie na economia real, e não mais no interesse do mercado financeiro. Para isso é fundamental: a) operar a Selic ao nível da inflação, como fazem os demais países; b) emitir moeda para pagar os juros da dívida federal, como fazem os países desenvolvidos e; c) deixar o câmbio flutuar, sem interferência do BC.

Com essas medidas se poderá: a) economizar os recursos hoje destinados ao pagamento de juros do governo federal (R$ 16 bilhões em média por mês); b) devolver às empresas o poder competitivo que foi retirado com o câmbio artificialmente valorizado pelo BC; c) equilibrar as contas externas e; d) crescer de forma sustentada, com fundamentos macroeconômicos sólidos.

Fora de ponto. A economia vem sendo operada fora de ponto. É como um potente motor que, estando fora de ponto, se move rangendo e trepidando. O rendimento é baixo e, com o tempo, pode queimar. O fora de ponto da economia é com taxas de juros básica (Selic) e ao tomador. Isso ressalta quando se compara o Brasil com as economias de outros países. Lá fora essas taxas são bem inferiores e próximas entre si. Quando se fala de taxa de juro da economia se refere à taxa ao tomador. Aqui, o mercado financeiro e o BC consideram como taxa da economia a taxa básica, o que é erro grosseiro.

A taxa básica elevada, além do dano fiscal, causa atração aos capitais internacionais, mantendo o câmbio artificialmente elevado, tornando o produto importado barato e dificultando a competitividade da empresa local. O artificialismo cambial gera o desequilíbrio nas contas externas, que registraram rombo de US$ 72,5 bilhões (3,2% do PIB) nos doze meses até junho.

O câmbio de equilíbrio para restaurar essas contas é de R$ 3,00/US$, conforme o gráfico, que ilustra a relação entre as transações correntes e o câmbio em valores atuais, corrigidos pelo IPCA, para os anos de 2005 a 2012.

A outra variável fora de ponto é a taxa de juro ao tomador. No País, é de 90% ao ano ao consumidor e de 45% ao ano para as empresas, segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). Isso trava o consumo ao dobrar o valor das prestações, e reduz a oferta ao impor limite financeiro ao capital de giro das empresas. Para reconduzir o País à rota de crescimento com sólidos fundamentos macroeconômicos, é necessário que as variáveis fora de lugar retornem à posição que é seguida internacionalmente nas taxas de juros.

O BC não serve para isso, como demonstram décadas de abuso de taxas de juros. A responsabilidade para encerrar o cassino financeiro é da presidente. Terá força para essa virada de página? Todos os presidentes anteriores foram no mínimo omissos. Se Dilma, que anunciou que iria mudar isso, cumprir com a palavra, terá feito a marca do seu governo. A conferir.

* AMIR KHAIR É MESTRE EM FINANÇAS PÚBLICAS PELA FGV E CONSULTOR.

Publicado em Política
  • Um comandante nazista na Volkswagen do Brasil 27/07/2017
    Publicado na DW. Ex-comandante dos campos de extermínio de Treblinka e Sobibór na Polônia, Franz Paul Stangl trabalhou por oito anos na Volkswagen do Brasil, entre 1959 e 1967. Ele foi responsável por montar um setor de monitoramento e vigilância na unidade de São Bernardo do Campo para espionar funcionários durante a ditadura militar, como revelou a Comissã […]
    Diario do Centro do Mundo
  • Reitor é ameaçado de morte por decidir entregar título de doutor honoris causa a Lula 27/07/2017
    O reitor da Universidade Estadual de Alagoas, Jairo José Campos da Costa, denunciou à Polícia Civil que foi ameaçado de morte porque entregará o título de Doutor Honoris Causa ao ex-presidente Lula, em agosto. Apesar da ameaça, ele mantém a decisão, aprovado pelo Conselho Universitário. Lula é ex-presidente que mais recebeu honrarias depois de deixar […] O p […]
    Diario do Centro do Mundo
  • Após entrevista de Lula, como ser otimista? 22/07/2017
    Marcelo Auler Na entrevista que concedeu ao Blog Ultrajano, na quinta-feira (20/07), Luiz Inácio Lula da Silva deixou sem resposta a grande dúvida que muitos levantam: […] O post Após entrevista de Lula, como ser otimista? apareceu primeiro em Marcelo Auler.
    Marcelo Auler
  • Qual a saída para a crise? Lula saberá? 20/07/2017
    Marcelo Auler Dúvidas e incertezas povoam a cabeça de muitos nestes tempos de golpes e contragolpes..Não apenas simples eleitores, mas também pessoas tarimbadas, que durante as […] O post Qual a saída para a crise? Lula saberá? apareceu primeiro em Marcelo Auler.
    Marcelo Auler
  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
  • Lima Barreto nunca foi tão falado e tão atual
    O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para própria felicidade da espécie humana (Lima Barreto). *** Está na moda Afonso Henriques de Lima Barreto... Continue lendo
  • Na chegada à Lua, o amor que subiu a serra
    "Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro"  (Mario Quintana no livro "Ora bolas", de Juarez Fonseca, uma pequena antologia de causos engraçados do grande poeta brasileiro). Geralmente, é o autor,... Continue lendo
  • Resposta do PSOL a Lula é um primor de hipocrisia 27/07/2017
    A esquerda precisa se unir, mas se uma simples crítica de Lula ao PSOL provoca a resposta hipócrita e virulenta que o partido e seus expoentes deram, fica difícil. Erundina, por exemplo, vai à Folha acusar Lula de se aliar a Temer e ao PMDB sendo que, em 2004, ela se aliou a ambos como candidata a prefeita pelo PSB. É ou não é hipocrisia? Mas tem mais hipocr […]
    eduguim
  • Nem ponte, nem futuro: O cenário devastador dos investimentos públicos no Brasil 25/07/2017
    Fernando Brito, via Tijolaço em 24/7/2017 Reportagem de Martha Beck, Manoel Ventura e Geralda Doca, em O Globo de hoje [24/7], mostra o cenário devastador dos investimentos públicos no Brasil e, em consequência, a falta de qualquer perspectiva de retomada de um crescimento sustentado da economia, que vai ter, durante um bom tempo, com as […]
    bloglimpinhoecheiroso
  • Olha só onde foi gasto o dinheiro da tal 'conta do Lula' de que falou dono da JBS/Friboi 27/07/2017
    A imagem é um print da Folha.O Joesley, em sua delação, disse que criou uma "conta Lula" no exterior para abastecer o ex-presidente em suas necessidades. Foi a pedido do Lula? Não. Ele comunicou a Lula a existência da conta? Não. Quem usou a conta?A resposta está aí. O próprio Joesley, que botou na "conta do Lula" a compra de seu luxuoso […]
    Antonio Mello
  • Rodrigo Maia gastou, em três meses, mais de R$ 600 mil em voos da FAB 27/07/2017
    Em apenas três meses, foram 30 viagens entre Brasília e o Rio de Janeiro, onde mora; presidente da Câmara foi o campeão de voos no governo Temer Segundo na linha sucessória do país, o presidente da... Blog de política Brasil. Os amigos do Presidente Lula
    noreply@blogger.com (Helena™)
  • "This Is Not the Time to Sit Back": Protesters Launch Last-Ditch Effort to Save the ACA
    Nationwide protests have slowed down Republican lawmakers' attempts to strip people in the US of their health care, but the fight is far from over, say Anastasia Bacigalupo of California and Lauren Klinkhammer of Arizona, both of whom live with disabilities and risk losing coverage.Demonstrators rally outside of Sen. John McCain's Tucson office on […]
  • What Role Should the Military Play in the Fight for Transgender Rights?
    While President Trump's ban on transgender people from military service has been widely criticized even by fellow Republicans, it has reignited a debate within the LGBT community. Some have questioned whether the discourse on transgender rights should be broadened to include a critique of militarism. "Trump's transphobia is disgusting, like hi […]

Parece que o URL do site WordPress foi configurado incorretamente. Verifique o URL nas configurações do widget.