Se era para isso, para que tudo aquilo?

Um amigo lá dos idos 1970 me fez a pergunta do título.

Ele não se conforma com quem, como eu, militou na esquerda contra a ditadura militar e hoje vota Dilma para presidente.

Para que os riscos e sacrifícios da luta contra a ditadura se os resultados são moderados em relação aos sonhos da nossa juventude? Sim, sim, muito melhores do que os resultados de FH, ele reconhece. Mas ainda pequenos frente à tragédia social brasileira, agora sou eu quem reconhece.

Uma resposta fácil seria invocar a frase de Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

A frase solta não me conforta. Aliás, esta frase nunca deveria sair do poema de Pessoa.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

O início de “O Mar Portuguez” surpreende, onde não caberia, a princípio,  surpresa alguma, “Mar salgado”!, já tudo permitiria ao poema.  A pergunta “quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?” vence qualquer resistência racionalista.

A frase, tornada clichê, é inepta fora da beleza do texto. Os riscos da empreitada lusitânia eram difíceis de mensurar sem a ela se expor, posso dizer em favor de Pessoa.  Nem tudo vale a pena, independente do tamanho da alma. Nem sempre. Principalmente quando já temos acúmulo de conhecimento suficiente para saber de alguns riscos trágicos ou para optarmos pelo princípio da precaução.

Lula deixa um país melhor para o seu (a sua, espero) sucessor(a). Um Estado mais capacitado para combater a corrupção, com o brilhante trabalho do Waldir Pires, continuado pelo Jorge Hage formatando a Controladoria Geral da União. Não há mais a figura do Engavetador Geral da República. A PF é mais atuante,  profissional e republicana.

O Governo Lula perseguiu a melhoria real da vida da maioria da população com tenacidade. Acertando ou errando, o fato é que a vida da maioria importava.

Dentro da pergunta há uma pressuposição errada. A pressuposição de que há uma teoria capaz de entender o sentido da história humana e, uma vez de posse dela,  guiar os homens e as mulheres para um fim supra-humano.

A questão aqui e agora é outra. É a de negociar com os diversos saberes, sentimentos e intuição de mais de 135 milhões de eleitores.

Tudo aquilo” se justifica pelo que era a ditadura e pelo que éramos então.

A jovem esquerda que lutou contra a ditadura não é a responsável direta pelo governo Lula. Como não era pelo governo Sarney,  Collor ou FH.

Responsável é o povo brasileiro, na sua maioria. Influenciado por um sistema de informação, pelo poder econômico, pela escolaridade, patati e patatá. Mas também pelo vexame do comunismo no mundo e pelas dificuldades do Estado de Bem Estar Social  resistir à nova manada dos egos neo-liberais.

Muitos de nós demos uma longa volta, da crítica ao “populismo” de Vargas, Jango e Brizola, influenciados por intelectuais da USP como o Weffort, até o voto pela continuidade do lulismo de resultados.

No caso, creio, valeu a pena.

A herança que deixamos é a de um país melhor.

Mesmo com o  “mensalão”? Lembro de alguém ter se referido ao governo Lula, por conta da narrativa da Globo & associados do caixa 2 petista,  como a maior derrota da esquerda. Porque seria desmoralizadora. Não deixaria lições. Tudo água abaixo, não ficaria pedra sobre pedra.

Ainda que Lula tivesse sido derrotado nas urnas em 2006, ou ainda que tivesse sofrido o impeachment em 2005, ainda que Dilma perca em 2010, nada disto era verdade.

O Brasil hoje é uma força no mundo a favor do estado de bem estar social, contra o egoísmo cego da riqueza fictícia.

Não vieram para os nossos ombros o peso de nada parecido com o stalinismo, nem com a sangrenta derrota do Chile, tampouco com a debácle econômica ou social.

As novas gerações de brasileiros são mais livres para encontrarem caminhos razoáveis para uma vida melhor para todos.

Encontrarão? Difícil saber.

O medo, o ódio e o preconceito de uma velha classe média apavorada com a subida dos de baixo é visível e barulhenta.

Não identificar as batalhas reais em curso pode manter a paz da consciência de quem se julga capaz de resolver os problemas de forma mais rápida e eficaz, não fosse pelo pequeno detalhe da falta de votos.

Não me iludo, não se iluda, tudo agora mesmo pode estar por um segundo. Voto Dilma, voto Lula.

Publicado em Política

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