Alvoroço no PIG

O PIG  baba na gravata, doido para pular na jugular da Dilma  por conta do Sigilo Fiscal da Dona Verônica Serra, filha do Zé, ocorrido há um ano atrás.

Estupram, alegremente e com ar de senhores de respeito, o sigilo das investigações, gravando os nomes d0(a)s funcionário(a)s da receita à eterna acusação nos bits da internet. Contra a lei, mas a lei, ora a lei.

Confesso (canalha!canalha!) que tive curiosidade de ver o resultado da quebra do sigilo da Dona Verônica. Necas de Pitiriba. Nem uma linhazinha. Deve ser o sentido ético, a objetividade e a honra excepcional da nossa brava imprensa.

Dizem que por R$ 200,oo dá para comprar os dados que se quiser na rua Santa Ifigênia, em SP.  Não irei até lá.

Sem ter minha chula curiosidade satisfeita, fico a pensar sobre as conseqüências do atual alvoroço. Lembrei de uma crônica do Nélson Rodrigues, sobre “O Canalha”. Ei-la:

“Sento-me para escrever e vem, de fora, pela janela, a nos­talgia da rua Alegre. Eis a verdade: — sou, antes de tudo, a rua Alegre. Não Olinda, não Tijuca, ou Copacabana, mas rua Ale­gre. E foi lá que, aos seis anos, tornei-me testemunha ocular e auditiva de uma cena desesperadora. O episódio ocorreu de­pois de um Carnaval. Estávamos em mil novecentos e vinte e poucos. E o Carnaval antigo era a mais lúgubre das festas.

(Quem olhasse as nossas fantasias havia de imaginar que o carioca é um defunto vocacional. E, realmente, a caveira era a máscara de toda uma cidade. Ainda hoje, pensando na minha infância, me pergunto se não será a morte a paixão mais senti­da do brasileiro.) Mas como ia dizendo: — perto da nossa casa, morava a família de um funcionário dos Correios e Telégrafos. E eu não saía de lá.

Uma tarde, vejo um hediondo bate-boca entre o funcioná­rio e a sogra. Ela, gorda, com gazes enroladas nas varizes das canelas; ele, magro, peito fundo de asmático. Discutem, não sei por que, e, de repente, ela o vara com o insulto: — “Canalha! Canalha!”. Eu não sabia direito o que era canalha. Bem me lem­bro: — o dono da casa recua, lívido, já com dispnéia. Desabou numa cadeira, enfia a cara nas duas mãos e começa a chorar.

O filho da vítima, um garoto da minha idade, fugiu para o fundo do quintal. Eu, não: continuei ali, fascinado. Todavia, o importante para mim não era o choro do adulto, nem as vari­zes da sogra, nem o dano moral do funcionário. O importante, repito, era a palavra inédita. Sim, a palavra que eu ouvia pela primeira vez e que me feria para sempre. Aquilo não me saía da cabeça: — canalha, canalha.

O sentido era obscuro. Mas a palavra valia pelo simples som, e por uma espécie de halo e, mais, pela íntima ferocidade. Daí por diante, aquele homem deixou de ser alguém. Não era um funcionário, ou um vizinho, ou um velho. Era uma palavra, ou, melhor dizendo, era “o canalha”. Claro que sogra e genro fize­ram as pazes dois ou três dias depois. E o vi dizendo, num ges­to largo, que começou no chão e chegou ao teto: — “Uma san­ta, uma santa”.

Até que o canalha morreu. Fui lá. Eis a verdade: — a partir dos seis, sete anos, não perdia um enterro de vizinho. Pequeni­no e cabeçudo como um anão de Velásquez, metia-me no veló­rio; e ficava, de longe, espiando o morto, enquanto ardia, no alto, a chama tão fiel e tão compadecida dos círios. Mas o que me deslumbrava, ainda, não era a morte, era a palavra. A sogra chorava mais do que a esposa. E o som cruel me perseguia, sem­pre o mesmo: — canalha, canalha.

E passou o tempo. Saímos de Aldeia Campista para Tijuca e desta para Copacabana. Ah, Copacabana em 1923, 1924, era docemente residencial como o Botafogo de Machado de Assis. E, um dia, sou convidado para fazer alpinismo. Um grupo de rapazes e moças ia escalar o Dedo de Deus. Confesso, relutei a princípio; sempre achei o alpinismo vagamente idiota, e ain­da mais o alpinismo brasileiro. Mas tanto insistiram que cedi.

Era um domingo parnasiano, de um azul quase insuportável. Sempre me parecera que as cores brasileiras não têm caráter. O azul brasileiro não é bem azul; e assim o amarelo, o verde, o roxo. Tudo manchado. Naquele dia, não. Cores violentas, pas­sionais. E, de repente, brota um desconhecido na excursão. De onde saíra, quem era, como se chamava, eis as perguntas que fazíamos sem lhes achar a resposta. Eu disse “desconhecido”, mas já retifico: — menos para mim. E, de fato, eu já vira aquela cara não sabia onde, nem quando. Súbito, uma luz baixa em mim e me lembro: — era meu vizinho de infância e, pior, filho do canalha.

Eis o que eu pensava: — filho do canalha e, por morte do pai, canalha também. Desde o primeiro momento, ele conquis­tara, de assalto, a intimidade das meninas e dos rapazes. Era um desses encantos pessoais absolutos. Quando parávamos para to­mar água, comer um sanduíche, ele nos divertia com um élan e um virtuosismo de profissional. Lembro que, uma vez, pôs-se de quatro na paisagem. Puxou uma laranja do bolso e a equili­brou no nariz. Sempre de gatinhas, andou circularmente. Foi um êxito desvairado. Dos presentes, um único não riu, um úni­co não achou a menor graça! — o noivo de uma das moças, jus­tamente a mais linda do grupo.

O canalha foi, durante a excursão, um deslumbramento. Sa­bia ler mão, fazer mágicas de baralho; e, em dado momento, abriu a boca e pôs um fósforo aceso em cima da língua. As me­ninas vinham espiar e podiam observar uma saúde dentária inexcedível, sem uma única e escassa obturação. Só o noivo, com um ciúme de ópera, de Cavalleria rusticana, continuava inconquistável. Tomava conta da noiva e rosnava a qualquer tentati­va de aproximação. Seja como for, o canalha nos caíra do céu. Estávamos todos convictos de que o alpinismo era mesmo um esporte de débeis mentais. E ele nos salvava do tédio mortífe­ro. Além de todas as outras habilidades, tinha mais uma: — can­tava tangos, com um jogo cênico de Rodolfo Valentino nos Qua­tro cavaleiros do apocalipse.

No meio do caminho, aparece um rio lindo. E, então, num rompante de gênio, o canalha berra a idéia: — “Vamos tomar banho?”. Sucesso fulminante. Todo mundo estava neurótico de alpinismo. Num segundo, houve uma unanimidade feroz. Tu­do ficou combinado: — as meninas tomariam banho num lado e os rapazes no outro. E assim se separaram os sexos.

Todos os rapazes, inclusive o noivo de ópera, retiraram-se para o trecho da paisagem que lhes competia. Tiraram a roupa e se jogaram no rio, com uma desesperada volúpia. Felizmen­te, o rio tinha profundidade e todo o mundo mergulhava e na­dava, com uma gana paradisíaca. Súbito, o noivo lança a per­gunta pânica: — “E fulano?”. Fulano era o canalha. Não estava. A hipótese do afogamento não convenceu ninguém. E, então, uma intuição bateu no noivo. Por coincidência, usou ele a pa­lavra que assombrava minha infância: — “Canalha, ah, canalha!”.

Todos aqueles nus se juntaram na expedição punitiva. Eis a certeza que se instalara em cada um de nós: — estava espian­do o banho das moças. Começou a caçada. E quando a turma chegou, rastejando, no lugar certo, alguém arriscou um olhar na direção das meninas que se banhavam, dentro da luz. E logo todos espiaram. Lá estava aquela nudez múltipla, molhada, to­tal, A noiva do ciumento era a própria Ava Gardner aos dezessete anos. Ninguém pensou mais no canalha, ninguém. Cada qual se pendurou no seu galho e ficou olhando, como um sátiro esplêndido.

Depois, as meninas saíram, enxugaram a nudez, puseram a roupa. E, então, os rapazes, com o noivo à frente, saíram atrás do canalha. Justamente, vinha descendo de sua árvore; e seu olhar ainda vazava luz. Levou uma surra medonha. Quase o mataram”.

Nelson Rodrigues, crônica 70 do Livro “A Menina Sem Estrela”, disponível em http://ebooksgratis.com.br/livros-ebooks-gratis/literatura-nacional/memorias-nelson-rodrigues-a-menina-sem-estrela/

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