Bolsa Família: a “reforma” insensata da oposição

Lena LAVINAS

Professora Associada do Instituto de Economia da UFRJ

Períodos eleitorais são fases de muito ruído no campo das políticas públicas. Podem suscitar debates que levam à formulação de medidas incrementais e até à criação de iniciativas inovadoras. Por vezes, porém, trazem à tona oportunismos latentes que podem engendrar retrocessos com impactos danosos para toda a sociedade.

O projeto de lei de autoria do Senador Tasso Jereissati que pretende “reformar” o Programa Bolsa Família inscreve-se na categoria dos retrocessos. Surpreende constatar ter sido aprovado na Comissão de Educação do Senado.

Tal Projeto de Lei visa criar um benefício variável extra, em valor a ser definido e regulamentado após aprovação da Lei, “a ser pago no decorrer dos anos subseqüentes aos [alunos] que obtiverem desempenho acadêmico acima da média apurada em avaliação realizada pelo órgão federal competente.” Em outras palavras, trata-se de vincular o direito a uma renda monetária, destinada a reduzir a severidade e a intensidade da pobreza, ao sucesso escolar, acentuando o caráter meritocrático, e, portanto, excludente, desse benefício adicional, sob o argumento de que “freqüência às aulas, por si só, não é indicativo de sucesso escolar”.

Quanto a esse aspecto, não há discordância. Da mesma maneira que presença não garante aprendizado, muito menos de qualidade, seria crédulo supor que um incentivo monetário pudesse ser um diferencial perceptível para que crianças de seis, sete, oito, dez anos resolvessem atingir desempenho acima da média, como advoga o projeto de lei.

Argumentar que “estimulados pelo interesse dos alunos, os professores tenderão a se envolver com a causa desse alunato” é não só desrespeitoso com os educadores desse país, mas revela uma profunda ignorância sobre o que é a arte e o dever de formar cidadãos e lhes despertar o prazer de aprender, das descobertas, do domínio do que era antes desconhecido.

Não bastassem os controles já exercidos sobre as famílias beneficiárias, desnecessários, porque inócuos, defende o projeto de lei que se abandone o modelo de aferição do desempenho escolar dos alunos realizados pelo INEP, por amostragem, para adotar outro, “semi-censitário”, que consideraria apenas o universo dos alunos beneficiários da transferência de renda. Além de estigmatizante, essa proposta é inconstitucional por discriminar os mais pobres e vulneráveis, apartando-os no âmbito do sistema de avaliação do ensino público. O SAEB é uma avaliação amostral e o Prova Brasil, próximo de um censo, mas com cobertura limitada. Transformá-los em avaliações censitárias implicaria gastos elevadíssimos. Não surpreende observar, que, no caso, gastar mais – e sobretudo gastar mal – não preocupe os grandes defensores do corte dos gastos públicos.

Finalmente, cabe registrar aquilo que já é amplamente conhecido por quem atua na área da educação: dinheiro não é incentivo ao bom desempenho no ensino fundamental e médio. Uma avaliação sobre os impactos sociais e educacionais do Programa Bolsa Escola do Recife, financiada pelo Banco Mundial e pela OIT, ao final dos anos 90, realizada junto ao universo de crianças beneficiárias e não-beneficiárias, e tendo aplicado provas de matemática e português ao grupo e ao controle, constatou que o benefício não tinha correlação com a performance dos alunos. Seu maior efeito era legitimar a permanência na escola das crianças cujo desempenho era deficiente, o que fatalmente as empurrava para fora do sistema educacional no médio prazo. Outro resultado da pesquisa foi estabelecer que a qualidade da escola (infra-estrutura) e dos professores (formação) tinha impacto positivo sobre o desempenho dos alunos, beneficiários ou não.

Nem o Oportunidades do México, cujo valor do benefício aumenta à medida que a criança avança no ensino seriado, associa de forma estrita benefício a desempenho. Passar de ano é suficiente para receber um incentivo maior. Quando à frente do governo do DF, o Senador Cristóvão Buarque instituiu uma poupança que seria disponibilizada para o aluno uma vez concluído o ensino fundamental, como um prêmio ao esforço. Agora o que se quer é que alunos pobres estimulem professores desencorajados a melhorar seu próprio desempenho em troca de mais dinheiro. Nada menos didático, formador e civilizatório!

Benefícios assistenciais têm por finalidade dirimir o grau de destituição dos extremamente pobres. O Bolsa Família tem impacto relativamente modesto em retirar da pobreza seus beneficiários. Mas sua incidência na redução da indigência é significativa e valiosa. É um Programa que pode ser aprimorado, antes de mais nada tornando-o um direito de todos que preenchem os requisitos de elegibilidade.

Para os desconhecedores da política social brasileira, cabe assinalar que 50% das famílias que ainda vivem abaixo da linha de pobreza do Bolsa Família – renda familiar per capita inferior a R$ 137,00 mensais – não são alcançadas pelo maior programa assistencial do governo, segundo a PNAD 2008. Ou seja, se algo há a fazer para aprimorar o Programa, que se avance na direção certa – garantir um direito assegurado pela Lei a quem preenche requisitos para habilitação -, em lugar de multiplicar sanções e reduzir cobertura para aqueles cujas oportunidades são escassas, quando existem.

No país das elites que conseguem obter dedução ilimitada de imposto de renda de pessoa física com gastos em saúde, até para cirurgia plástica, os pobres podem ser nominalmente identificados como beneficiários de programas de transferência pública no site do MDS, em nome da transparência e do controle. Mas os beneficiários de isenções bilionárias no IR, que, inclusive, deduzem despesas com educação sem que se avalie se seus dependentes foram merecedores desse incentivo, estes têm direito ao sigilo de sua identidade.

O Brasil tem uma lei de renda básica, até hoje letra morta, e um sistema de seguridade social complexo, moderno, abrangente, onde a assistência é um direito inequívoco. A república e a democracia são incompatíveis com valores de apartação.

Publicado em Notícias
Um comentário em “
  1. Catarina disse:

    Bela análisa da Lena Lavinas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
  • A reação do Sul ao “Plano Atlanta” 23/01/2018
    Arnaldo César (*), de Porto Alegre (RS) Durante algum tempo se questionou no Brasil quem eram  os articuladores do golpe que arrancou Dilma Rousseff do poder […]
    Marcelo Auler
  • Por Lula, movimentos populares chegam a POA 22/01/2018
    Marcelo Auler, de Porto Alegre (RS) Pouco depois das 07H00 desta segunda-feira (22/01), 48  horas antes de ter início o julgamento do recurso que a defesa […]
    Arnaldo César
  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
  • A despedida do Balaio do Kotscho
    Adeus, amigos. Chegou a hora da despedida do Balaio do Kotscho aqui no R7, que publicou meu blog desde 2011. Foram quase seis anos e meio de convívio quase diário, de domingo a domingo (neste último, escrevi sobre o grande Rolando Boldrin, o "Sr.... Continue lendo
  • Última semana para a “reforma política”: eles só querem grana
    Acaba esta semana, no dia 7, o prazo para o Congresso Nacional terminar sua "reforma política" para que as mudanças propostas possam valer já na eleição de 2018. Como os dias úteis das excelências costumam terminar na quinta-feira, o tempo urge... Continue lendo
  • New York Times: provas de Moro contra Lula não seriam aceitas nos EUA 23/01/2018
    Artigo no jornal norte-americano diz que provas que Moro usou para condenar Lula não seriam levadas a sério nos Estados Unidos e que esse processo "empurrou a democracia brasileira para o abismo" O post New York Times: provas de Moro contra Lula não seriam aceitas nos EUA apareceu primeiro em Blog da Cidadania.
    eduguim
  • Blog Limpinho & Cheiroso está no Facebook 04/01/2018
    Por um período, o blog Limpinho & Cheiroso estará apenas no Facebook. Ele voltará nessa plataforma no período eleitoral. Para acessá-lo na rede social do Mark Zuckerberg, clique em Facebook para seguir o blog. Há braços de luta.
    bloglimpinhoecheiroso

Parece que o URL do site WordPress foi configurado incorretamente. Verifique o URL nas configurações do widget.

%d blogueiros gostam disto: