Digressão carioca

O Governo Bené, em 2002, breve na sua duração mas intenso na batalha política, ainda carece de um relato histórico.

O previsível clima de tensão em torno da gestão de Benedita da Silva atingiu níveis inimagináveis quando da trágica morte do jornalista Tim Lopes.

Uma coisa é a pessoa Tim Lopes e sua família, merecedores de toda a solidariedade e respeito. Outra coisa é entender o símbolo político que sua morte projetou naquele momento.

A TV Globo, como guia político da direita brasileira,  ganhou uma motivação moral nova. É claro que o cinismo e a grana permitem que a TV Globo comande sua luta política cotidiana sob qualquer condição. Mas é inegável que um forte impacto moral afia as garras da tropa de choque, estimula a criatividade e o espírito de luta da turma.

O Governo Bené iniciou com problemas de caixa arquitetados pelo Garotinho, recebeu chantagens da bandidagem, fardada ou não, e ainda veio a comoção social por conta da morte do Tim Lopes.  Foram meses de muita pressão.

A própria Bené e alguns dos seus auxiliares se destacaram numa jornada de dedicação integral à arte de desatar os nós e as armadilhas de um período tenso que coincidia com a clara chance de eleger Lula Presidente.

Dois amigos meus acompanharam o Ricardo Henriques nesta empreitada. O Guto Pires e o André Teixeira. Eles um dia contarão os detalhes da saga.

O Guto, em particular, também conhecido como Gato Pires, relata em tons épicos a participação  do Ricardo Henriques nas negociações no Complexo do Alemão.

Não tenho condições de fazer este relato. Apenas quero constatar, por conta da discussão sobre a criação do bolsa família,  que não foi a dedicação do Ricardo Henriques que lhe garantiu o cargo de Secretário Executivo no Ministério que a Bené viria a comandar no início de 2003.

De alguma forma a Bené recebeu o recado de que deveria convidá-lo para o Ministério. Exatamente como e por quem, eu não sei. Suponho que a idéia tenha vindo do Pallocci/Marcos Lisboa.

Assim como a candidatura do Luis Eduardo Soares a vice da Bené, a presença do Ricardo Henriques como seu secretário executivo, poderia significar uma aproximação de setores da classe média da “nação petista” com a mulher, negra e favelada, muitas vezes vista com desconfiança por estes mesmos setores.

Esta distância e desconfiança foi um grande atraso para o PT no Rio. Ao invés de bancar a Bené e tê-la como candidata prioritária aos cargos majoritários, o PT do Rio viveu buscando e testando alternativas àquela que melhor lhe dava resultados eleitorais. Melhores não apenas pela quantidade de votos como também pela composição dos mesmos, mais vigorosa nas áreas populares.

Poderia ser uma aproximação, mas não foi. Mais uma chance perdida.

Não houve, ao menos no caso do Ricardo Henriques, nenhum ato de traição ou deslealdade. Mas não houve também um comprometimento político em torno de projetar a Bené no que mais importava, na elaboração e discussão do bolsa família.

Ricardo tinha clareza da importância de unificar os programas de transferência de renda e elevá-los a um novo patamar orçamentário. Não queria fazer cócegas na miséria. Queria alterar o quadro estatístico da distribuição de renda no Brasil, tal qual apreendida pela PNAD do IBGE (basicamente a renda do trabalho).

Seria injusto insinuar que Ricardo tenha enganado a Bené. Não, não enganou.

Talvez tenha faltado aquela conversa a dois, mais franca, onde deixasse claro que provavelmente haveria orçamento para esse programa, que provavelmente ele faria a diferença na política social, que a sua gestão no ministério já desatara os maiores nós do cadastro único, que poderia ser uma bandeira para sua trajetória política.

Talvez tenha havido esta conversa. Não sei. Especulo que não, mas não sei.

Eu tentei conversar com a Bené sobre o Cadastro Único. Não era fácil.

Mais um dos “meninos do Ricardo”. Desconfianças. Não a culpo. Bené tem todas as razões para desconfiar. O preconceito já se abateu sobre ela das mais variadas formas.

Enfim, essa digressão carioca é apenas para assinalar que a falta de um projeto mais claro e pactuado no RJ sempre foi uma debilidade da esquerda local nas disputas eleitorais no Estado e na projeção de lideranças.

O mesmo problema viria a se abater sobre o próprio Ricardo Henriques. E é sobre isto que quero falar num próximo post desta seqüência sobre o bolsa família.

Publicado em Notícias

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