Antropologia sobre os muros: Berlin e Wall Street

 

Janine R. Wedel
Antropóloga e Professora de Políticas Públicas

 

 

Uma multidão de cidadãos de Berlim Oriental entope a rua Bernauer, em Berlim no sábado, 11 novembro, 1989, onde a polícia de fronteiras da Alemanha Oriental derrubou parte do muro.

 

No 20 º aniversário da queda do Muro de Berlim, recordo a atmosfera elétrica nas ruas de Berlim. Eu estava lá, vendo as multidões de alemães orientais passando como enxames pela fronteira. Eu era antropóloga social, bolsista da Fulbright, baseada em Varsóvia em Novembro de 1989. Dirigi, com um amigo, através da Polônia, em pleno racionamento de combustível, e da Alemanha Oriental para testemunhar de perto. Naquela época, muitos dos animados alemães orientais que entrevistei – até mesmo alguns guardas de fronteira – olhavam para os Estados Unidos como um farol da democracia.

Ao avançar 20 anos, muitas das esperanças dos que estavam presentes na queda do muro não se realizaram. Em grande parte do antigo bloco soviético as décadas seguintes se caracterizaram não só por jovens democracias, mas também por corrupção e obscuras transações para os poucos com muita informação privilegiada.
Para os americanos, o que pode ser mais estarrecedor é que os papéis do Oriente e Ocidente foram, de certa forma, invertidos. Ironicamente, em vez do ex-bloco oriental olhar para os E.U.A como modelo, os E.U.A parecem modelar seu comportamento nos pós-comunistas da Europa Oriental. E, nada menos do que o interesse público dos EUA, está em jogo.
A forma como o governo e as empresas já estão entrelaçadas nos E.U.A, nomeadamente na sequência do colapso de Wall Street, começa a se parecer com o emaranhado de clãs dirigidas pelo auto-interesse e a rede governo-empresas e outras redes informais que surgiram durante a transição do Leste para uma economia de mercado na década de 1990.
Cheguei a essa conclusão depois de passar três décadas estudando sociedades comunistas e pós-comunistas – primeiro observando como as pessoas driblavam o regime comunista, e quando ele se desfez, como os jogadores se posicionaram para exercer poder e influência e, dessa forma, ajudaram a criar a ordem emergente. No século atual, já tendo voltado parte da minha energia de volta para a terra natal, a experiência anterior revelou-se – para minha surpresa – a preparação ideal para olhar para questões semelhantes nos Estados Unidos.
Na Europa Oriental, o que aconteceu é claro. Quando a estrutura de comando de um estado de planejamento central que possuía virtualmente todas as propriedades, empresas e riquezas quebra, e nenhum substituto autoritário é colocado em seu lugar, um modelo em rede para governar e fazer negócios se desenvolve para substituí-lo. Em toda a região, redes de antiga duração, posicionaram-se no vínculo Estado-Privado, cresceram para preencher o vácuo de liderança e, às vezes, saquearam os despojos da riqueza outrora estatal. Conhecidos como “clãs” na Rússia, “redes nômades institucionais” na Polônia, e ainda outros nomes em outros lugares, seus membros sempre eram enérgicos e bem postados, às vezes também eticamente contestados.
Um “estado-clã” surgiu na Rússia na década de 1990. Durante esse período, a competição de panelinhas político-financeiras – ou clãs – mobilizaram-se para exercer o controle sobre a economia, energia, segurança interna e outras áreas importantes. Eles tinham uma base forte, tanto nos segmentos do Estado, quanto nos negócios ou finanças. Sua lealdade era para seu grupo, e para promover a agenda do grupo, e não o interesse público geral. Um bom exemplo do clã russo poderia ser o “Chubais Clan”, que leva o nome do jovem “reformador” Anatoly Chubais, reunido inicialmente por meio de um clube de jovens intelectuais, e que depois juntou-se a consultores da Universidade de Harvard para realizar a reforma economica e a privatização dos bens do Estado e se tornou um dos clãs mais poderosos da época. Sua vantagem comparativa, no contexto russo, foi o seu acesso a centenas de milhões de dólares da ajuda ocidental. Para servir as agendas do clã, seus membros se apropriavam de informação oficial, investiam sobre a burocracia e o parlamento democraticamente eleito, jogavam múltiplos papéis por todo o governo e organizações privadas de ajuda externa
Uma versão semelhante, mas mais benigna, de clã se desenvolveu na Polônia pós-comunista – as “redes institucionais nômades”. A expressão foi cunhada por sociólogos poloneses e, por vezes, surge na mídia da polônia. Essas coesas redes são assim chamadas porque os seus membros migram livremente entre as instituições – governamentais e não governamentais, incluindo as sucursais de bancos nacionais e fundações internacionais. As redes nomades não eram, nem aproximadamente, parecidas com as clãs, no sentido de cruzar a linha para atividades criminosas – não havia tanto em jogo na Polónia como na Rússia, vasta, e rica em recursos. (Além disso, há pouca evidência de infiltração da máfia criminosa no estabelecimento político polonês, ao contrário do quadro institucional e legal do estado-clã russo.) Tal como acontece com os clãs, no entanto, a lealdade primária dos membros é a sua rede, em vez das instituições, tanto governamentais como não-governamentais, para a qual eles estejam trabalhando em um dado momento.
As redes nômades foram os principais atores, especialmente nos anos iniciais do pós-comunismo, mas eles ainda dominam hoje. Uma rede deste tipo, que era muito visível na década de 1990, conhecida como Ordynacka (e cujos primeiros membros se reuniram durante seus dias de estudante, sob a égide de um clube de comunistas), conta entre suas fileiras com o popular Aleksander Kwaśniewski, que serviu como presidente da Polônia entre 1995-2005. Ordynacka não pode ser reduzida a um partido político, ONG, clube social, empresa ou organização de lobby, mas sua influência pode ser visto na política, na economia e na mídia.
Os membros das clãs e das redes nômades institucionais operam para garantir os recursos e o poder necessários para alcançar os seus objectivos de grupo, quaisquer que sejam, muitas vezes em detrimento das instituições a que supostamente servem.
Pode parecer absurdo sugerir que a democracia americana hoje tenha algo em comum com a Rússia ou a Polonia, no início de 1990, ou exagerado comparar empresários e funcionários do governo americanos com os clãs russos e as redes nômades polonesas. Mas, no rescaldo da crise financeira nos Estados Unidos, algumas coisas começam a parecer familiar.
Os atores pós-comunista carregam uma semelhança impressionante com o punhado de interconexões entre Wall Street e os tomadores de decisão de política do governo que “coincidem” com os mais altos escalões do poder e ficaram simbolizadoa como “Governo Sachs.” Desde aqueles que arruinaram a Enron até aqueles que operaram o mais recente naufrágio de Wall Street, uma falta de lealdade às instituições, incluindo a falta de respeito para os accionistas e conselhos de administração, tem caracterizado o modus operandi dos jogadores de Wall Street, o que proporcionou a crise financeira nos Estados Unidos – e no mundo.
No Leste Europeu e nos E.U.A , os operadores no topo da definição das regras governamentais de controle de contas e dos códigos de concorrência das empresas , em última análise, respondem apenas uns aos outros. Em ambos os casos, é difícil conseguir ser mais “eficiente”, porque a informação privilegiada e o poder estão confinados a muito poucos atores, fiéis uns aos outros. Suas manobras estão em grande parte fora do alcance dos controles tradicionais. Nada mais eficiente, por exemplo, do que ter dois ex-executivos da Goldman Sachs como secretário do Tesouro, Henry Paulson, e como assistente Neel Kashkari manejando 700 bilhões em dinheiro do contribuinte para empresas financeiras em perigo, incluindo um pedaço mais do que generoso para a Goldman Sachs.
Além disso, o círculo entrelaçados de decisores políticos e financeiros nos Estados Unidos está criando não só a arquitetura financeira do futuro, apoiado pelo poder e por bilhões de dólares do Estado, mas, mais abrangentemente, novas relações entre a burocracia governamental e o mercado.

A perfect example of these relationships in Russia is Gazprom, the natural gas conglomerate created from the Soviet gas ministry in 1989 and staffed by nomenklatura turned capitalists. While it was nominally privatized in the 1990s, the Russian government holds a controlling stake and Gazprom is run by Putin cronies. Just as the Russian government holds a controlling stake in this major industry, bailouts have made the U.S. government a huge shareholder in two financial firms, AIG and Citi, as well as two carmakers, General Motors and Chrysler. Through their maneuverings, these networks help create new institutional forms of governance in which state and private power are not only interdependent but often blurred. With minimal public input or even notice, this new architecture provides more and more opportunities for the players to reinforce their power and wield influence — largely beyond public scrutiny.

Though practically invisible to the public, the current challenge to democracy actually characterizes much of federal governance in the United States today. This state of affairs grew out of a reconfiguring of the balance between state and private interests, combined with a hollowing out of the regulatory and monitoring functions of the state. A major contributor to it lies in regulatory and policy changes associated with the contracting out of government work to private companies over the past 15 years. One result is that, today, most of the work of the federal government is actually performed by contractors. In fact, three-quarters of the people working for the U.S. government actually receive their paychecks from private companies, according to government scholar Paul Light. The outsourcing of many government functions is now routine. Contractors choose and oversee other contractors, control crucial databases, draft official documents, and run intelligence operations — constituting one-fourth of the country’s intelligence workforce. Government bailouts and stimulus packages are managed and overseen by contractor firms that can hardly be said to be disinterested.

While the public is familiar with the excesses of the now infamous Blackwater (renamed Xe), it is generally unaware that companies stand in daily for government. Many public priorities and decisions are driven by private companies instead of government officials and agencies that must answer to citizens, with officials only signing on the dotted line. In report after report, government investigators (such as the Government Accountability Office and inspectors general) have raised questions about who really sets policy — government or contractors? — and whether government has the information, expertise, institutional memory and personnel to manage contractors — or is it the other way around? Other contributors to the new forms of blurred governing include the rising number and influence of quasi-government advisory boards, according to the Congressional Research Service, the upsurge in personal envoys forging public policy, and the drift of governmental legitimacy and expertise to private partners.

The upshot of all this is that new institutional forms of governing that join the state and the private permeate virtually all arenas of government, most visibly intelligence, military and “homeland security” enterprises, where so much action has taken place since 9/11. It is questionable whether the world’s model democracy can be counted on to act in the national and public interest. And it is hard to see how all this can be unraveled. The challenge the current state of affairs presents to democracy and the free market may well prove more daunting than the dismantling of the Berlin Wall.

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Janine R. Wedel, a professor in the School of Public Policy at George Mason University and a senior research fellow at the New America Foundation, is the author of “Shadow Elite: How the World’s New Power Brokers Undermine Democracy, Government, and the Free Market” (Basic Books, Dec. 1).

Publicado em Notícias

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