Conversa de botequim

Publicado pelo Miguel do Rosario, no Oleo do Diabo:

[…] Na mesa onde eu estava, conforme eu ia dizendo, havia as duas correntes. Uma, que achava que as Olimpíadas seriam um desastre, outra que a enxergavam como um fato positivo. Eu engajei-me logo entre os otimistas, citando informações que somente um frequentador da blogosfera possui. Falei que estimava-se que mais de 100 bilhões de dólares seriam investidos na cidade e que a experiência do PAN poderia servir para evitar o erro da falta de transparência.

O papo foi fluindo, naturalmente, e quase já mudávamos de assunto, quando uma colega insistiu num prognóstico bastante sombrio. Começou a lançar pragas, numa linguagem apocaliptica, não apenas para o Rio, mas para todo o Brasil. Afirmou, com todas as letras, que o Brasil não tinha jeito, que estava fadado ao fracasso, e que as Olimpíadas, portanto, também não poderiam dar certo. Seu discurso radicalizado isolou-a, mas ela o manteve.

Então eu comprei a briga. Lembrei que o Brasil tinha vários pontos positivos, admirados no mundo. Citei, por exemplo, o programa de assistência gratuita aos doentes de Aids. Ela, então, argumentou que se tratava de assistencialismo. Fiquei perplexo com o cinismo e a crueldade daquela opinião. Disse-lhe que tinha um amigo com Aids que recebia os remédios do governo e que só estava vivo por causa disso. Ela reagia apenas com um risinho sarcástico. Sem argumentos, disse que tinha mestrado, pós-graduação, tinha morado no exterior. Era uma tentativa de me intimidar, de se colocar numa posição superior. Nossa discussão já tinha ficado um pouco agressiva e desagradável.

Creio, no entanto, que teremos que nos acostumar com esse tipo de discussão. É o resultado da ruína do pensamento único. Na verdade, devemos até incentivar essas discussões. Parte da classe média desenvolveu um cinismo pavoroso, um anticomunismo infantil (porque não temos nenhum fantasma comunista por perto), e uma agressividade extremamente pedante em relação à pensamentos divergentes.

Dissemos que ela estava repetindo clichês, e que se tratava de um caso clássico de “síndrome de vira-lata”. Ela não estava preparada para enfrentar um blogueiro escaldado nesse tipo de pendenga ideológica. Informei-lhe que os EUA prestam forte assistência social a sua população, citando o vale-alimentação que dão a milhões de americanos pobres desde a II Guerra. Ela não sabia nada disso.

Em comparação aos países desenvolvidos, incluindo os EUA, os programas sociais brasileiros são tímidos. Na Dinamarca, a mulher grávida tem quase 2 anos de assistência estatal. Na França, o jovem com mais de 18 anos, sem emprego, recebe automaticamente uma ajuda do governo para iniciar a sua vida independente, e tem desconto em aluguéis.

O déficit de informação é gritante no Brasil. Sempre que eu, por uma razão e outra, saio do meu isolamento habitual, eu me estresso como as pessoas, mesmo as mais inteligentes, repetem, como papagaios, os clichês que ouvem na mídia. Por mais inteligente e culta que seja a pessoa, ela só pode desenvolver uma opinião consistente sobre um assunto através do processamento de informações variadas. É justamente o que não temos. Pode-se ser um gênio, da música, da filosofia, da ciência, não interessa – se as informações processadas não forem honestas e heterogêneas, emitir-se-á opiniões viciadas sobre determinado tema. Há mesmo um agravante. As pessoas que detêm (ou acham que detêm) conhecimentos especializados (sobre ciência, artes, filosofia, etc), desenvolvem uma tal vaidade sobre o seu próprio saber que não admitem estar erradas, mesmo num tema sobre o qual não estão bem informadas. Aliás, esse é o grande trunfo da internet. A intelectualização da massa. Sempre que passeio nas caixas de comentários dos blogs que frequento (Nassif, PHA, etc), impressiono-me com o humor, a clarividência, a simplicidade, a lógica, dos textos, tão diferente do festival de clichês irritantes que encontramos em certos “luminares” da imprensa.

Publicado em Notícias
Um comentário em “Conversa de botequim
  1. Ana disse:

    Muito boa a publicação do relato. Eu também estive envolvida em uma conversa parecida. O moço achava um absurdo que tivessemos ganho. Ele argumentava que ainda tínhamos “problemas primários” em todos os campos, principalmente saúde. Melhor teria sido se tivesse sido EUA. Argumentei que lá existia 30 milhões sem qualquer assistência médica. Retrucou que o SUS era uma droga. Disse que só se fosse o coquetel para AIDS. Nosso sistema de saúde não seria uma maravilha, mas as pessoas retiravam remédios na rede pública, os idosos tomavam suas vacinas blablá. Se ele desse uma volta ao redor do Brasil (nos países vizinhos) veria. A conversa acabou quando ele já não tinha argumento e já não tinha paciência. Disse: o problema é que você é um tremendo mal carater. Me arrependi, mas já era tarde.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
  • Juiz manda exumar; Polícia Federal retarda – procrastina? 26/09/2017
    Marcelo Auler Em 10 de julho, o juiz Edilberto Barbosa Clementino, da 5ª Vara Federal de Foz de Iguaçu (PR), contrariando a posição da Polícia Federal […] O post Juiz manda exumar; Polícia Federal retarda – procrastina? apareceu primeiro em Marcelo Auler.
    Marcelo Auler
  • Ordem no cabaré 23/09/2017
    Arnaldo César (*) Gostem ou desgostem, o recado está dado: Ou, o executivo, o legislativo e o judiciário tomam tenência na vida e acabam com essa […] O post Ordem no cabaré apareceu primeiro em Marcelo Auler.
    Marcelo Auler
  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.
  • STF julga processos de Aécio e Maluf: qual decidirá antes?
    Esta notícia não está nas manchetes, mas um fato inédito pode acontecer em Brasília nesta terça-feira: o julgamento de um tucano na Lava Jato. Após três meses de adiamentos, está na pauta da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal o... Continue lendo
  • Nova denúncia contra Temer: vale a pena ver tudo de novo?
    É como reprise de novela: você já conhece o elenco, a trama e o final. Os personagens são os mesmos. Vale a pena ver tudo de novo? A partir desta segunda-feira, a Câmara deixa tudo de lado para julgar a nova denúncia apresentada pela PGR contra o... Continue lendo
  • Ao mostrar recibos, Lula puxa o tapete de Moro e MP 26/09/2017
    Glaucos da Costamarques tem quase 80 anos. Deu pena vê-lo titubear diante da alternativa de mentir ou passar o que lhe resta de vida na cadeia. Optou por mentir dizendo que Lula não pagou aluguel. Essa era a aposta de Moro e da mídia antipetista. Porém, Lula desmontou o processo que o imperador da República de Curitiba conduz contra si ao mostrar recibos que […]
    eduguim
  • Lava-Jato: Verba pública para rever família, encontrar artistas… 26/09/2017
    Marcelo Auler em 20/9/2017 Para atender à força-tarefa da Lava-Jato de Curitiba nos seus anunciados objetivos de “combater a corrupção” e os gastos indevidos de recursos públicos, o Ministério Público Federal (MPF) se envolveu em um labirinto burocrático a ponto de pagar diária para procurador regional voltar para a casa da mulher e do filho. […] […]
    bloglimpinhoecheiroso
  • Ocorreu um erro. É provável que o feed esteja indisponível. Tente mais tarde.

Parece que o URL do site WordPress foi configurado incorretamente. Verifique o URL nas configurações do widget.

%d blogueiros gostam disto: