Khamenei não gosta de Ahmadinejad. Mas tem medo dos seus eleitores

A popularidade de Ahmadinejad entre os mais pobres, fonte da sua vitória eleitoral, independente de fraudes,  está ancorada na sua fala fortemente hostil contra a corrupção dos riquíssimos cléricos, sua firme defesa da segurança e soberania nacional e seus programas de transferência de renda.

Boa parte dos líderes religiosos do Irã considera Ahmadinejad uma ameaça aos seus interesses, seja por questionar suas prerrogativas financeiras e extravagâncias milionarias, seja por assumir riscos internacionais que eles não gostariam de assumir.

Khamenei, o líder supremo, enfrentou uma difícil escolha pós-eleição. Ele poderia determinar uma recontagem total ou mesmo nova eleição, ou poderia validá-la. Optou, talvez a contragosto, pela última.

Muitos clérigos, como Rafsanjani, um dos homens mais ricos do mundo segundo a revista Forbes, abertamente pediu que Khamenei convocasse novas eleições. Ele foi um dos financiadores da riquíssima campanha de Moussavi.

O Instituto Stratfor, um think tank da direita americana (conhecido como a CIA das Sombras – shadow CIA) , considera que Kamenei gostaria de atender Rafsanjani mas ficou com medo.  As manifestações  dos apoiadores de Mousavi não chegariam aos pés do que seria a tempestade entre os apoiadores de Ahmadinejad, tanto de seus eleitores quanto das forças de segurança, caso sua vitória fosse negada.

A mídia ocidental não entende isto porque não entende que Ahmadinejad não fala para os cléricos mas contra eles, que muitos dos cléricos trabalharam por sua derrota e que Ahmadinejad possui forte apoio entre o aparato de segurança do país.

A classe média de Teerã, legitimamente ansiosa por uma liberalização radical, encontrou no racha na elite iraniana espaço para demonstrar seu descontentamento e, quem sabe,  derrubar o regime dos aiatolás.  Talvez fiquem apenas como bucha de canhão.

A teocracia é uma merda. Mas muita coisa se move em Teerã, muito além da compreensão da mídia ocidental.

RECONTAGEM

Quando uma suspeita de fraude eleitoral é levantada, a recontagem de votos é uma medida eficaz. Quando possível. No Brasil, isto não pode, simplesmente porque não há voto em papel para ser recontado. Obra dos nossos velhinhos do TSE, contra todos os alertas de Brizola.

Nos EUA, a recontagem em Miami foi brequada pela Suprema Corte que deu a vitória a Bush. Uma vergonha, de pouca repercussão formal e graves consequências para o mundo.

No Irã, haverá recontagem aleatória de 10% dos votos. Moussavi se recusa a participar. Dificilmente houve fraude significativa, a ponto de alterar o resultado eleitoral. Para Moussavi é melhor insistir numa nova eleição, melar a que perdeu.

Publicado em Notícias
Um comentário em “Khamenei não gosta de Ahmadinejad. Mas tem medo dos seus eleitores
  1. Ana disse:

    Excelente leitura dos acontecimentos. Lamentavelmente outras versões têm predominado. Não sei se é por ignorancia ou se existe algo que escapa ao meu entendimento.

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