O gordo, as uglies e o deputado

“The Good, the bad and the ugly” (O bom , o mal e o feio) é um grande filme. Obra de Sérgio Leone musicada magistralmente por Enri Morricone, ocupa, ao lado de “Once Upon a Time in the West”, destaque entre os clássicos do cinema que miram a hipocrisia.

O Good Jô, bom comediante mas político medíocre,  conseguiu emplacar o tom da campanha pelo impeachment do Collor. O moralismo seletivo deixou os corruptores de fora. Uma das maiores vergonhas do PT foi a participação a reboque e acrítica nos espetáculos do Gordo.

Em época mais recente, o Gordo montou um time de feias para repetir o sucesso da hipocrisia. Não deu certo. Seu maior feito agora foi conseguir que a turma do psol repetisse a mesma sabujice dos deputados do pt.

Leio no Óleo do Diabo que o Gordo, enfim, enfrentou alguém altivo.

‘Ontem assisti entrevista no Jô Soares com o deputado gaúcho Sérgio Moraes, do PTB do Rio Grande do Sul, que me lembrou dos belos versos de Martin Fierro, o clássico fundador da literatura argentina:

“No me hago al lao de la güeya
Aunque vengan degollando
Con los blandos yo soy blando
Y soy duro con los duros,
Y ninguno en un apuro
Me ha visto andar tutubiando”

E pensei em escrever um artigo. Aí o Eduardo Guimarães, rápido no gatilho, escreveu antes. Reproduzo o texto dele aqui para economizar algumas observações que eu iria fazer. Mas tenho otras cositas a dizer sobre esse assunto. Continuo depois da citação:

Lixando o Gordo

Por Eduardo Guimarães

Na madrugada de terça-feira desta semana, o programa do humorista Jô Soares recebeu o deputado pelo PTB gaúcho Sérgio Moraes, que foi atacado por todos os grandes jornais, revistas, tevês, rádios e portais de internet por ter dito a frase “Estou me lixando para a opinião pública”.

Jô Soares recebeu o combativo deputado federal gaúcho achando que estava recebendo o presidente da Câmara dos Deputados Michel Temer, que poucos dias antes fora ridicularizado pelo apresentador ao tentar defender a Casa que preside dos ataques das “meninas” do Jô, conclave de balzaquianas que se reúne ali semanalmente para defender os interesses políticos de José Serra atacando seus inimigos políticos.

Moraes fez o Gordo terminar a entrevista rapidinho ao revelar que o programa dominical da Globo Fantástico escondeu do público votação em urna que o programa promoveu na cidade natal do deputado, cidade que inclusive já governou. O resultado da votação seria apresentado durante matéria que o Fantástico exibiu no último domingo sobre a frase “Estou me lixando…”.

Como o resultado da votação não foi o que a Globo esperava, pois o deputado teve apoio de 54% dos que votaram, e como o apoio dele em sua cidade se mantém inalterado, a emissora escondeu o resultado da enquete. E Moraes disse isso a um Jô desconcertado.

Além disso, o deputado explicou que uma repórter – que ele deu a entender que era da Globo – o ameaçou dizendo que, se ele não revisse sua posição, que ela achava favorável ao deputado pefelista dono daquele Castelo, a imprensa jogaria a opinião pública contra ele, ameaça que o impeliu a dar aquela resposta impensada que a imprensa transformou na notícia mais comentada da semana em todo país.

Como se não bastasse, Moraes ainda desmentiu os quatro processos judiciais que o Gordo dizia haver contra ele, afirmando que são – e que sempre foram – apenas dois.

Um dos processos a que responde o deputado é por ter determinado contratação sem concurso de dois médicos logo que assumiu o cargo de prefeito em sua cidade, medida que afirma que tomou por não haver médico no posto de saúde então. E o outro processo foi porque foram instalados telefones públicos em todos os armazéns de víveres da cidade e o pai do deputado era dono de armazém.

 

Sem ter como atacar mais o deputado, o Gordo encerrou a entrevista cerca de dez minutos depois de ela ter começado.

O Edu foi rápido e direto, como sempre. Eu acrescentaria algumas coisas:

1) Nunca vi um entrevistador receber um político entrevistado com “uma ficha” do mesmo no Supremo Tribunal Federal. Ora, uma quantidade muito grande de políticos, inclusive Serra, FHC, e mais a torcida do Flamengo, tem processos no STF, não porque são bandidos, já que é preciso dar-lhes, por uma questão ética, a suposição de inocência, mas porque isso faz parte da luta política. Todo político tem seus adversários, e a troca de acusações entre adversários políticos é uma tradição oriunda dos primórdios da democracia ocidental. Repito: é muito estranho e agressivo um entrevistador receber um parlamentar com a sua ficha jurídica sobre a mesa; e ainda apontar-lhe processos inexistentes, como fez Jô. Desta vez, porém, o gordo quebrou a cara.

2) O deputado me impressionou. Eu não o conhecia e, por ocasião do sensacionalismo que fizeram a partir de sua frase, pensei que fosse um barnabé desastrado e ignorante do baixo clero. Enganei-me redondamente. Por isso lembrei dos versos do escritor José Hernandez, que relatam a história de um gaúcho perseguido, que desafia o mundo com seus versos altivos e dolorosos. Moraes revelou-se um homem corajoso, articulado, proprietário daquele orgulho desesperado, trágico, mas sempre nobre e digno, que caracteriza o gaúcho. Entendi porque foi preciso que uma trupe de gaúchos saíssem lá dos confins da fronteira, e amarrassem seus cavalos no obelisco da Avenida Rio Branco, na capital federal, para dar um fim à odiosa oligarquia paulista e mineira que dominava a república velha. Moraes enfrentou Jô Sôares, enfrentou a platéia de Jô, enfrentou inclusive um covarde ataque da produção do programa, que interrompeu o deputado para exibir um vídeo manipulado com entrevistas feitas na rua sobre “o deputado que falou que se lixava para a opinião pública”.

3) Conforme o próprio Jô deu a entender, o deputado tomou a iniciativa de entrar em contato com a produção do programa para pedir uma entrevista. Muito promissor. Há parlamentares procurando defender a sua honra.

4) O lado ruim da história é que Jô Soares mostrou que voltou de férias determinado a cumprir papel de verdugo. Não está aí para brincadeiras. O quadro “meninas do Jô”, com jornalistas fortemente unidas em torno do projeto de amplificar e repercutir os ataques midiáticos diários ao governo Lula, com objetivo de desestabilizá-lo e abrir espaço à oposição, desenterrou, na falta de assuntos, até o cadáver de Celso Daniel, mesmo depois da polícia de São Paulo, estado governado por adversários do PT, ter entendido que se tratou de crime comum. Morte de petista, é claro, é sempre misteriosa e cercada de circunstâncias sinistras. Já os tucanos, mesmo os assassinados (leia-se Abel Pereira), morrem sob o coro dos anjos.

5) Diariamente, mesmo em entrevistas com médicos, Jô dá um jeito de enfiar bordões partidários, a começar pelo mantra mais clichê da oposição sem discurso: mensalão. Um infectologista, entrevistado por causa da gripe suína, falava sobre a revolta da vacina, ocorrida no Rio no final do século XIX, quando milhares de cariocas se revoltaram contra as autoridades, que entravam nas casas para vacinar a população à força. Jô lembrou desse episódio, mas sem referir às versões históricas mais contemporâneas e esclarecidas, que revelaram o conflito social ao fundo daquela revolta, de uma população humilhada e insatisfeita com as maneiras brutais com que era tratada pelo governo. O médico aproveita para relatar que os cariocas, na época, revoltavam-se facilmente, fazendo protestos constantes, contra o aumento da passagem do bonde, elevação do custo de vida, etc. Jô cortou o homem para afirmar que era uma lástima que, atualmente, o carioca fosse tão anestesiado, e não protestasse mais, vide o exemplo do… mensalão. O médico ficou perplexo com o salto pirotécnico do gordo. Fiquei com vontade de entrar na televisão e lembrar ao gordo que, no Rio, ainda há muitos protestos, queimam-se ônibus, a cinelândia vê protestos diários (inclusive nesta quinta-feira 21, haverá um pelo monopólio do pré-sal). Queria observar-lhe que, naqueles tempos lembrados pelo médico, a população tinha o costume de se dirigir às redações dos jornais, destruir máquinas e surrar jornalistas identificados como aliados aos opressores do povo.

6) Compreendi uma coisa. A surra que a mídia aplica nos parlamentares revela quem são os covardes e indignos, que aceitam o látego midiático com submissão e doçura, e quem são os corajosos, que reagem a esta opressão e respondam com a dignidade e a altivez que devem à seu eleitorado e ao povo brasileiro. Não é apenas a ética a virtude em falta no Congresso Nacional. Falta igualmente a coragem. E por faltar, por ser raro, o seu valor aumenta sempre que aparece um parlamentar “cabra-macho”.

7) A coragem não tem ideologia. De nada adianta, portanto, o sujeito ter um belo discurso social, ambiental, trabalhista e ético, se não possuir a virtude fundamental, a coragem.

8) A coragem é mais importante que a ética. Porque somente os honestos por uma questão de princípio e coragem é que valem alguma coisa. Muitos honestos o são apenas por medo de serem maus, por timidez em mostrar sua perversão; e isso sem contar a grande maioria de tartufos, os fingidos e artistas de sempre. Assim falava Zaratustra: “mas há também alguns para quem a virtude é um espasmo produzido pelas disciplinas (…) e outros que chamam virtude à preguiça de seu vício”.

Vale citar mais um trecho do livro de Nietszche, novamente extraídos do capítulo intitulado Dos Virtuosos:

Que náuseas, quando lhes sai da boca a palavra virtude! E quando dizem: Sou justo, é num tom em que se percebe: Estou vingado! Querem despojar os seus inimigos com a sua virtude, e só se elevam para rebaixar os outros. E há outros ainda que apodrecem no seu pântano e que falam por entre o caniçado: Virtude é estar quieto no pântano.

Eles dizem: “Não mordemos a ninguém e afastamo-nos daquele que quer morder; e em todas as coisas somos da opinião que se nos dá”.

9) Eu sou ateu. Acredito em Cristo, não em Deus. Um dia explico melhor isso. Mas adoro expressões religiosas. Tipo essa: Deus existe! Sim porque seguramente existem forças superiores a nós. Enquanto a Globo, Ali Kamel, Jô Soares, e a legião de escravos mentais que lhes hipotecam, obedientemente, as opiniões políticas, consideram-se muito fortes e inteligentes por estarem repetindo entre si suas meia-verdades e seus preconceitos, eles apenas perdem tempo, se alienam e se debilitam, como índios velhos e doentes dançando em volta da fogueira e fazendo uuuuu, sem coragem de enfrentar a floresta inteira que se mobiliza contra eles.

Desculpa aos índios por tê-los comparado a esses coiós, mas eu quis imaginar o seguinte cenário: muito antes da colonização portuguesa, uma tribo de índios covardes e decadentes, que há tempos matavam crianças e mulheres de uma longínqua região da Amazônia, está prestes a ser exterminada por um conglomerado de tribos guerreiras, que se aproximavam, camuflados na floresta.

10) O deputado explicou minuciosamente o contexto dentro do qual soltou a famigerada frase: “estou me lixando para a opinião pública”. A repórter queria que o parlamentar julgasse outro deputado com base no que a imprensa iria dizer, e não nos laudos do processo. Entretanto, é óbvio que há um clima tenso no Congresso, entre jornalistas, identificados com uma oposição política obscura, agressiva, sem amarras institucionais e eleitorais, e os parlamentares, acuados pelo clima de chantagem e desestabilização gerado pelo sensacionalismo denuncista.

Tenho uma conhecida que trabalhou por mais de dez anos na editoria política de um jornalão do PIG, em Brasília. Ela contou-me que, de fato, muitos jornalistas vestiam a camisa da oposição, chegando ao cúmulo de, numa CPI, uma repórter ligar para senadores, para que eles comparecessem à uma reunião. Ou seja, valiam-se do privilégio de poder frequentar os salões e corredores do Congresso para interferir na vida política da nação.

A mídia agora tem acusado parlamentares suplentes de atuarem sem serem eleitos. Ora, eles não foram eleitos mas foram indicados pelos eleitos! Eles estão integrados ao sufrágio universal. A imprensa não. A imprensa não integra o sistema republicano, porque não é democrática, não responde às exigências éticas de todas as outras instituições republicanas. Por que um hospital, para dar um exemplo de uma instituição civil, deve obedecer a uma série de rígidos regulamentos e a imprensa, que tem poder de vida e morte sobre os cidadãos, que pode disseminar pânico, provocar crises políticas, derrubar governos, influenciar eleições, causar distúrbios na saúde, interferir na cultura e na educação da sociedade, por que a imprensa não responde às mesmas exigências?’

Publicado em Notícias

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