Matar o Brizola

Coincidências 

Li o perfil biográfico aí de cima. Foi de lá que tirei a citação ao Lampreia, ex ministro de relações exteriores de FHCardoso.

Durante seu governo fui a uma delegacia de polícia, na rua bambina, botafogo, com uma amiga, para registrar o furto do carro dela no humaitá.

Encontramos mais uma vítima prestando a mesma queixa para um local e horário próximo ao nosso.

Nosso objetivo era acionar o seguro, que naquela época costumava pagar os sinistros sem maiores problemas, ao contrário de hoje.

O policial disse que eles sabiam da grande ocorrência de furtos naquela área, mas  não podiam fazer nada porque o Brizola não deixava. Havia uma ordem para eles não saírem da delegacia. Eles não podiam prender bandido e defender os cidadãos porque o Brizola não deixava.

Eu disse que era mentira.

Ele, gentilmente, contra argumentou: Desacato à autoridade.

Desculpa. Retiro o que disse.

Procurei um amigo jornalista, talvez ele se interessasse em contar esta absurda história sobre o comportamento de um funcionário público como agente provocador.

Meu amigo olhou para mim e havia dó naquele olhar. Depois sorriu. Cê acha que alguém vai querer publicar isto?

Elite da Tropa, o capítulo Brizola.

Li o livro, logo que foi lançado  e demorei a ver o filme, Tropa de Elite,  por causa da algazarra da mídia sobre a violência da película. Era uma época que eu não queria assistir violência gratuita. E, o pior, havia notícias que a platéia aplaudia quando o capitão Nascimento barbarizava um soldadinho do tráfico.

Não queria compartilhar deste ambiente.

Fiquei desconfiado quando o Jabour, o marido da assessora do José Serra, disse que o filme era fascista. Aqui eu errei. O Jabor não disse que o filme era fascista. Houve tal polêmica. Eu fiquei com essa idéia errada arraigada até hoje (ontem, quando fui corrigido por um leitor atento)

Peguei na locadora e assisti. Gostei. Não entendo como alguém pode se sentir estimulado a bater palmas para a violência do capitão Nascimento. O filme não propicia isto. O filme não tem nada de fascista.

Tem uma tese polêmica, sobre a culpa dos usuários de droga. É apenas uma tese. Eu nem compartilho desta tese, ao menos não  como orientadora de políticas públicas.

O filme, e isso não é uma crítica, não pega algumas outras passagens do livro, sobre o trabalho de inteligência da corrupção. Nem pega o capítulo Brizola do livro, que começa assim:

– Matar Brizola?

– Isso mesmo.

– Você está louco?

– Não sou eu . Somos nós. A decisão foi do grupo.

– Vocês estão loucos.

– Loucos mas não covardes.

– Você está me chamando de covarde?

– Querer cumpri a lei é ser louco? Lutar contra o crime é loucura? Se é, somos loucos, sim.

– Você está maluco. Desde quando matar o governador é cumprir a lei?

– Se o governador é a antilei, se impede o cumprimento da lei, se bloqueia a luta contra o crime, se não deixa a polícia agir, se amarra as nossas mãos…

– E desde quando o Brizola amarrou as nossas mãos?

– Ele nos impôs a cumplicidade, nos obrigou à passividade. Que policial sou eu? Que policial é você?

– Que é isso , rapaz?

– Se estamos proibidos de subir morro, de invadir favela, de prender traficante…Então, não é? Não nos amarrou?

– Claro que não. Esse papo não tem pé nem cabeça. 

– Ah, não? Não é verdade? […]

– O que o governo não quer e nós também não deveríamos querer é ficar subindo favela a toda hora, promovendo aquele banho de sangue, matando e morrendo por nada.

O diálogo continua. Ontem à noite, peguei o livro, há muito tempo encostado numa prateleira distante, e abri neste capítulo.

Sabemos que o livro foi escrito por gente com experiência no BOPE e na Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro. Se houve um plano mesmo, não sei.

Mas é verossímel e, no mínimo, retrata o tipo de reação contra a corajosa política de direitos humanos implantada por Brizola no Rio de Janeiro.

Política que reduziu os índices de violência no Rio.

Política que foi violentamente combatida por jornalistas, principalmente pela Rede Globo de Televisão.

Combate que contou, infelizmente, com o silêncio cúmplice da maioria do PT. Coisas da pequena política.

globosni

Há algum tempo decidi que o jornal O Globo não entraria na minha casa. Seu papel não se prestaria nem como depósito do xixi do cachorro nem  para limpar o chão da rua do cocô produzido pelo passeio do cão.

Hoje pela manhã me deparei com essa manchete do O Globo. É, tem uma banca de jornais aqui na esquina, onde compro os malditos cigarros e onde O Globo é sempre visível, visível demais. Já reclamei.

Mesmo que a banca me atendesse não adiantaria. Acesso uma sinopse dos jornais na internet.

Porque cargas d’águas, Brizola morto desde 2004, o Ali Kamel, ou a família Marinho, resolveu colocar esta manchete?

Eles tem o direito de fazer o que quiserem no jornal deles. É uma iniciativa privada, ao contrário da Rede Globo de Televisão, uma concessão pública.

Desde que respeitem o direito de resposta. Como um morto vai responder?

Mas, também fiquei curioso sobre a motivação.

Fugir do camargoduto? Algum acerto com o César Maia? O que o César deixou de fazer? Algum recado para a ABIN ou para a Polícia Federal? Qual o negócio, mostra o teu jogo…

Nunca saberei.

Curiosidade também sobre qual o sentimento do jornalista que escreveu a matéria.

Alguém conhece o  Bernardo Mello Franco? Tem como encaminhar umas perguntas para ele?

O mote, o chapéu da matéria, é o SNI. O Globo sabe que boa parte dos relatórios dos arapongas é feita com base em notícias de jornais. O Globo cansou de insinuar as fontes do caixa 2 do Brizola. O jornalista consultou os arquivos do O Globo? 

Trecho vergonhoso da matéria (segundo sinopse da radiobrás): “De 1982, quando foi eleito numa eleição marcada por suspeitas de fraude, a 1986, quando passou o cargo ao desafeto Moreira Franco, Brizola foi citado em 1.460 dossiês do SNI”

Eleição marcada por suspeitas de fraude? Eleições marcadas pelo desmascaramento da fraude armada pela proconsult com cobertura da Rede Globo contra o Brizola. Quem viveu sabe. As novas gerações sabem? Provavelmente não.

Como é o sentimento desta gente? Gostam de fazer estas pequenas sacanagens? Tem prazer? Orgulho? 

É apenas o dever cumprido? Agradar o patrão, embolsar o dinheiro e pronto?

Gostaria de ouvir esse povo. Conhecer esses jornalistas para entender.

Eu não nego que Brizola tenha feito caixa 2 para campanhas. É possível e até provável. E,  como ele não tinha acesso à elite do capital, o capital das grandes corporações e do sistema financeiro, deve ter procurado o capital menos valorizado socialmente.

Brizola nunca posou de vestal da moralidade. Criticava, com razão a postura de UDN de macacão do pt da época.

Agora, nunca nada foi provado contra ele. A matéria, contradizendo a manchete, reconhece isso. Como é o sentimento de atacar, ou ser usado para atacar, com espalhafato a honra de um morto? De uma pessoa que não pode mais se defender?

Sabemos (eu, o jornal e o jornalista), por outro lado, que às vésperas das eleições de 94 houve uma armação da polícia, com a sempre presente colaboração da Rede Globo, contra o Nilo Batista, vice de Brizola que assumiu o governo do Rio quando “el caudillo” se licenciou para ser candidato a presidente.

Isto ficou provado. A armação. Pegaram uma lista dos bicheiros. Disseram que tinha uma NB. NB? Então é óbvio, só pode ser o Nilo Batista. Não era. Nem era NB. Era NL. Uma simples falsificação. Desmascarada, sem alarde, depois que as eleições já tinham passado.

Se Brizola fosse vivo, esse jornalista teria a coragem de publicar esta vergonha? Se sim, certamente receberia uma resposta à altura, como bem sabe toda a turma da Globo.

Minha homenagem ao Brizola é rever este vídeo:

direito-resposta1

Clique na imagem para ir ao vídeo

Publicado em Notícias
5 comentários em “Matar o Brizola
  1. Valentim Antunes disse:

    É nojenta essa manchete, especialmente para os mais velhos que puderam acompanhar a vida de Leonel Brizola, um dos homens mais íntegros de nossa triste política: investigado ‘ad nauseam’ pela redentora, caluniado, ele e seus familiares, por essa nossa podre imprensa, nunca foi provado nada em seu desabono. Realmente, dá azia ler a imprensa gorda.

  2. JMP disse:

    A coisa foi pior.

    De fato, Brizola não mandara subir o morro, não tinha armas, negadas pela “Lei”. E nem era importante, bastava cercar. Estratégia militar.

    Mas havia dois PMs em cada quarteirão.

    E etc e etc…..

    Não, o Cenimar nada encontrou contra Brizola, mas .. apenas contra Brizola.

    Se queriam matar Brizola?

    Sim, desde….. vixe….. você não fumava… e nem eu.

  3. nilton de souza moraes disse:

    carolino 12

  4. nilton de souza moraes disse:

    carolino santos
    PDT,rua carlos rangel,75«centro«maricá«rj
    tel.37310453

  5. nilton de souza moraes disse:

    flamengo

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