Paradoxos da Dilma

Efeitos colaterais do lulismo incondicional
Por Maria Inês Nassif 


A adesão incondicional do PT ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem efeitos colaterais. O partido suprimiu qualquer projeto de agenda própria por constatar que a sua dependência eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua a mesma de 1989,1994, 1998, 2002 e 2006, mesmo não existindo a possibilidade de que ele seja novamente candidato em 2010.

Ao longo dos últimos meses, enquanto consolidava a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, como candidata à sua sucessão, dentro e fora do partido, Lula passou também a ser o fator de convergência de uma rearticulação interna que em outras eleições não apenas definiu um grupo majoritário no partido, mas o setor que se aliaria à sua figura e à sua popularidade. A diferença para os anos anteriores é que, antes, as contradições internas obrigavam a uma costura dos interesses dos grupos em conflito de tal forma que, se era objetivo de todos os grupos vencer as eleição com o candidato Lula, o programa que o levaria ao poder seria a síntese da dinâmica partidária. Em algum momento, no processo de luta interna, o partido conferia um perfil ideológico ao seu candidato e estabelecia uma relação orgânica com ele.

Nessas eleições, a dinâmica partidária está seriamente comprometida pelo que parece, de um lado, uma exigência de Lula ao partido, de adesão incondicional a um projeto de poder que é uma construção quase pessoal sua, e de outro, de um pragmatismo do PT, que cede por não ver possibilidades de uma vitória autônoma, que não dependa da popularidade do presidente Lula. Até o momento, não há sinais de que um projeto de poder e um projeto de partido irão se unir lá na frente de forma orgânica. A aliança entre ambos parece se dar muito mais em função de um risco de “retrocesso” – que, no entendimento interno, seria perder o poder para o PSDB – do que em função de um projeto político comum.

A candidatura da ministra Dilma Rousseff, nessas circunstâncias, é paradoxal. Do ponto de vista ideológico, ela se aproxima muito mais da média do pensamento do partido do que o próprio Lula. O presidente é um político competente e altamente intuitivo, com grande capacidade de liderança, mas a militância pretérita de Dilma a faz muito mais próxima à de grupos do PT que se originaram das facções de esquerda formadas na oposição à ditadura de 1964-1985. Dilma, todavia, não tem liderança própria no PT, nem experiência como mediadora das tendências petistas. Os grupos do partido são desconhecidos para ela; a militância petista é uma coisa que lhe é alheia.

Lula obteve a unanimidade dos grupos do partido em favor da candidatura da ministra, mas isto a tornou completamente dependente do presidente, dentro e fora do PT. Segundo o CNI/Ibope e o Datafolha, a crise já teve repercussões sobre a popularidade de Lula e do seu governo, embora o presidente esteja longe de ser impopular. De qualquer forma, uma candidatura petista sem vínculos orgânicos maiores terá escassas condições de manter a unidade interna por si mesma, e assim emplacar externamente, se a crise atingir de forma mais profunda o governo petista. Também a articulação feita junto aos PMDBs nacional e regional pelo PT tem enormes chances de desabar se Lula não mantiver a sua popularidade muito alta, pelas razões óbvias: o PMDB apenas é um aliado “natural” de um partido com chances inquestionáveis de vencer as eleições.

Nos dois casos, tanto para manter a coesão interna do PT em torno de Dilma, como para ter o PMDB como aliado, Lula tem que segurar a sua popularidade num nível muito alto, e a ministra tem que decolar rapidamente. Se a crise desgastar excessivamente a ambos, a construção de uma candidatura do zero, como é o caso da de Dilma, resultará em risco muito alto de derrota eleitoral. Daí, torna-se mais sensato apostar num candidato do campo governista que já tenha se exposto a uma disputa nacional, mesmo não sendo um petista, como é o caso do deputado Ciro Gomes (PSB). Na hipótese de queda muito grande da popularidade de Lula, portanto, a candidatura de Dilma poderá ficar tão isolada, a ponto de não sobreviver.

Daí o outro paradoxo da candidatura de Dilma Rousseff. Se a economia entrar no rumo e a popularidade de Lula continuar em alta, torna-se natural uma aliança com o PMDB em torno de seu nome, o que fatalmente acabará de empurrar o PT para o centro – e este, por sua vez, joga o PSDB, aliado ao DEM, mais ainda para a direita. Se o PMDB correr do PT, ele terá que refazer sua aliança com o bloco de esquerda – mas aí dificilmente Dilma, cuja biografia política está ligada a uma esquerda mais radical, sobrevive como candidata.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras no jornal Valor Econômico

Publicado em Notícias

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