O dia de amanhã

Primeiro Saramago: 
O amanhã e o milénio

Há dias li um artigo de Nicolas Ridoux, autor de Menos é mais. Introdução à filosofia do decrescimento, e recordei que já há uns bons anos, nas vésperas da entrada do milénio em que já estamos instalados, participei num encontro em Oviedo onde a alguns escritores se solicitava que traçássemos objectivos para o milénio. A mim pareceu-me que falar do milénio era demasiado ambicioso, por isso propus-me falar apenas do dia seguinte. Recordo que fiz propostas concretas e que uma delas era a agora enunciada por Ridoux no seu Menos é mais. Procurei no disco duro de computador e decidi-me a recuperar parte do que escrevi então e que hoje me parece ter ainda mais actualidade que nessa altura.

Quanto às visões do futuro, creio que seria preferível que começássemos por preocupar-nos com o dia de amanhã, quando se supõe que ainda estaremos quase todos vivos. Na verdade, se no remoto ano de 999, em qualquer parte da Europa, os poucos sábios e os muitos teólogos que então existiam se tivessem deitado a adivinhar sobre como seria o mundo daí a mil anos, estou que errariam em tudo. Contudo, algo penso eu em que mais ou menos acertariam: que não haveria qualquer diferença fundamental entre o confuso ser humano de hoje, que não sabe e não quer perguntar aonde o levam, e a amedrontada gente que, naqueles dias, acreditava estar próximo o fim do mundo. Em comparação, já será de prever um número muito maior de diferenças de todo o tipo entre as pessoas que hoje somos e aquelas que nos sucederão, não daqui a mil anos, mas a cem. Por outras palavras: talvez nós tenhamos ainda muito que ver com os que viveram há um milénio, mais do que com esses outros que daqui a um século habitarão o planeta… É agora que o mundo se acaba, está no ocaso o que há mil anos apenas alvorecia.

Ora, enquanto se acaba e não se acaba o mundo, enquanto se põe e não se põe o sol, por que não nos dedicaremos a pensar um pouco no dia de amanhã, esse tal em que quase todos nós ainda estaremos felizmente vivos? Em vez de umas quantas propostas arrojadamente gratuitas sobre e para uso do terceiro milénio, que logo ele, mais do que provavelmente, se encarregará de reduzir a cisco, por que não nos decidimos a pôr de pé umas quantas ideias simples e uns quantos projectos ao alcance de qualquer compreensão? Estes, por exemplo, no caso de não se arranjar coisa melhor: a) Desenvolver desde a retaguarda, isto é, fazer aproximar das primeiras linhas de bem-estar as crescentes massas de população deixadas atrás pelos modelos de desenvolvimento em uso; b) Suscitar um sentido novo dos deveres humanos, tornando-o correlativo do exercício pleno dos seus direitos; c) Viver como sobreviventes, porque os bens, as riquezas e os produtos do planeta não são inesgotáveis; d) Resolver a contradição entre a afirmação de que estamos cada vez mais perto uns dos outros e a evidência de que nos encontramos cada vez mais isolados; e) Reduzir a diferença, que aumenta em cada dia, entre os que sabem muito e os que sabem pouco.

Creio que é das respostas que dermos a questões como estas que dependerá o nosso amanhã e o nosso depois de amanhã. Que dependerá o próximo século. E o milénio todo.
A propósito, regressemos à Filosofia.

Publicado em O Caderno de Saramago 

Continuação:
Territórios de Cidadania

A ampliação do Programa “Territórios da Cidadania” tem enorme importância para o futuro imediatao do Brasil.

A mídia, principalmente do eixo rio-são paulo, praticamente ignorou a iniciativa.

territorio

Na miha opinião, o “Territórios da Cidadania” é a continuação lógica do Bolsa-Família.

O Ministério do Desenvolvimento Agrário teve a competência de desenvolver e articular, por méritos próprios,  uma proposta que estava presente dentro da equipe da Ana Fonseca quando da elaboração do programa (bolsa-família).

Uma forte articulação entre os governos federal, estaduais e municipais para universalizar programas básicos de cidadania, com foco em territórios delimitados com diagnósticos e metas.

O Programa forma lideranças com capacidade de análise e controle dos orçamentos.

De certa forma é bom que a mídia não dê muita atenção. Ou faça pouco caso.

No entanto, é uma pena que a agenda nacional, pautada sempre pela mídia de direita, não contemple este tipo de projeto.

Há um portal na internet com notícias do programa.

Dentro dele tem um blog. Neste, há um artigo de  Ignacy Sachs:  O Papel do Estado no mundo pós-crise e os desafios do Estado brasileiro

Foi um longo processo a articulação de ações sociais voltadas para as parcelas mais pobres da população.

Embate de idéias dentro do governo, avanços e recuos, pancadaria da mídia. Em todo caso, são políticas que vieram para ficar. Dificilmente um governo eleito democraticamente conseguirá derrubá-los. Embora possa não desenvolvê-los.

Não é uma má idéia, para quem quer investir e percebe que os juros que remuneram os títulos públicos vão cair (mesmo que os passos do BC sejam  mais lentos do que o desejado), olhar para os territórios já inclusos no programa.

Publicado em Notícias

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