Curtas. As Palavras.

Brincando com palavras.

Entender Paul Krugman é uma coisa. Traduzir e ser fiel ao seu estilo são outros 500. 

Nem falo dos trabalhos acadêmicos do mais recente Nobel de Economia.

Basta os textos coloquiais, da sua coluna e do seu blog no New York Times. Muita ironia e jogo de palavras.

Por exemplo, o título do artigo “Banking on the Brinks” recebeu versões diferentes.

Alguns blogs traduziram para “Os bancos diante do precipício”

O Estadão traduziu para “O sistema bancário no limiar do colapso”

O Globo traduziu para “Bancos na Berlinda”.

Banking, além de significar a atividade dos bancos, também designa a direção inclinada de um avião.

Brink é beira, à beira de,  prestes a, no limite, etc.

As letras bnki, nas duas palavras principais, coincidem.

Difícil encontrar em português algo com o mesmo ritmo, concisão e jogo de palavras.

Compreendo que alguns tradutores se vejam tentados a criar.
A criatividade de O Globo me pareceu marota. Conseguiu colocar Bs no início das duas principais palavras. Mas, Berlinda?
Desconfio que se fosse uma situação de falência no Brasil, eles traduziriam para “Bancos empurrados (pelo governo) para queda vertical no precipício”.

 

Palavras demais e de menos

Passagem marcante do livro de Gore Vidal, “Point to Point Navegation”, narra a morte do seu parceiro por mais de 50 anos,  Howard Auster, de câncer pulmonar e suas complicações. Editado em Portugal, tradução muito criticada. Esse livro de memórias de Gore Vidal ainda não foi lançado no Brasil.

“Quer conversar?”, eu perguntei. Houve um longo silêncio  e ele balançou a cabeça.

“Porque não?”

“Porque”, ele disse, “há tanto a dizer” […]

No original: “Because”, he said, “there’s too much to say.” […]

Em espanhol seria mais fácil: “Porque hay demasiado que decir”[…]

Sigamos;

Leto [o enfermeiro] chegou com seu jantar que ele pôs na mesa em frente à poltrona. Desci as escadas para pegar um sanduíche. Poucos minutos depois, Leto gritou, “Mr. Auster parou de respirar!” Corri escadas  acima. Ele estava quieto na sua poltrona, de frente para a janela. Tinha comido a maior parte do seu jantar. Na sua frente havia uma caneca de alguma mistura de vitaminas que ele gostava. “Ele apenas bebeu aquela bebida, inspirou fundo e então ele parou.” Sentei na cadeira em frente e fiz todas as coisas que nós aprendemos dos filmes para determinar a morte. Passei uma mão na frente da sua boca e nariz. Nada mexeu. Montaigne requer que eu descreva mais como ele parecia do que como eu me sentia. Os olhos estavam abertos e muito claros. Tinha esquecido que bonito cinza eles eram – doença e remédios tinham implacavelmente vitrificado; agora eles brilhavam e estavam atentos, e ele estava me olhando, conscientemente, através dos longos cílios. Pulmões, coração poderiam ter parado mas os nervos óticos ainda enviavam mensagens para um cérebro que, aqueles que devem saber nos dizem, não desliga imediatamente.  Assim nos fitamos um ao outro no fim. Ele estava sentado reto quando eu entrei no quarto mas agora, muito levemente ele tombou para a esquerda na sua cadeira. Leto discou paa o 911. “Você pode me ouvir?” Eu perguntei. “Sei que você pode me ver.” Embora não houvesse fôlego para falar, ele agora tinha uma espécie de irreverente expressão irônica do Bronx na sua face que dizia claramente para mim, que conhecia todas estas expressões. “Então esta é a grande merda de que todos falam.”[…]

No original: “So this is the big fucking deal everyone goes on about.”[…]

Palavra Gagá

Gore Vidal encanta pessoas pelo mundo. Não gostei de todos os livros dele. Mas li várias vezes “Juliano” e “A Criação”.  O melhor de sua lavra são os ensaios. Pouco disponíveis no Brasil. Entrevistas raras.

Porém, me deparo com uma chamada no google: “Gore Vidal está gagá”.

Reinaldo, velho eterno candidato ao posto de Paulo Francis, nunca chegará perto, colonista da Veja esbraveja o gagá por conta de uma entrevista de Gore Vidal na Folha. Acusa o repórter de disputar “para ver quem consegue ser mais crítico a George Bush”. Injúria ao repórter.

A primeira pergunta mostra a ignorância da turma da Folha. E como Gore Vidal precisa instruir a moçada:

“FOLHA – Depois do 11 de Setembro, o quão solitário era ser o senhor, uma das três ou quatro vozes norte-americanas que ousaram dar opiniões contrárias às da “Junta Bush-Cheney”, como o sr. os chama? 
GORE VIDAL –
 Muitas vozes se levantaram contra as guerras do presidente depois do 11 de Setembro. O único momento em que me sinto solitário é quando percebo que a mídia controlada pelas grandes corporações tem negado o direito de crítica contra um regime cada vez mais totalitário. Mas, desde as eleições roubadas de 2000, tenho falado para grupos cada vez maiores contra a junta Cheney-Bush”.

Putz! Três ou quatro vozes? Esses caras não conhecem nada dos EUA fora da mídia corporativa.

Competição de ignorância: Veja e Folha de São Paulo. Páreo duro.

Gagá? Enquanto Gore Vidal mantém, e faz por onde, admiradores pelo mundo, o candidato a Paulo Francis faz sucesso na Veja, São Paulo. E é cortejado pelo seu governador.

Há espaço no mercado para este estilo agressivo de mentiras. 

Veja, O Globo, Folha, Reinaldo e cia estão aí para atender tal demanda.

A propósito desta, o professor Wanderley Guilherme dos Santos escreveu uma excelente coluna: “Manifesto a favor do preconceito”, no jornal Valor.

“Temível é a inabalável certeza do autor de que ele, ao contrário dos que pensam diferentemente, é educado e bem informado. Não é nem uma coisa nem outra, mas desse dogma de delirante superioridade é que surgem a intolerância e a política da violência. Quantos milhões de brasileiros tal vírus já terá contaminado?”

Boa leitura, clique aqui.

 
Publicado em Notícias
Um comentário em “Curtas. As Palavras.
  1. Ana disse:

    Excelente análise. Imagino o trabalho de artesão na construção de tão sólidos argumentos.

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