Vingança da Abudância

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 Lembra os bons velhos tempos, quando costumávamos falar da “crise dos subprime” e alguns ainda pensavam que esta crise poderia ser “contida”? Oh, a nostalgia!

Hoje sabemos que o empréstimo subprime era apenas uma pequena fração do problema. Até mesmo os maus empréstimos imobiliários, em geral, eram apenas parte do que deu errado. Vivemos em um mundo de mutuários encrencados, desde construtores de shopping centers até países europeus que viviam “milagre” econômico. E novos tipos de problemas de dívidas continuam surgindo.

Como aconteceu esta crise da dívida mundial? Por que é tão abrangente? A resposta, eu diria, pode ser encontrada em um discurso que Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve, deu há quatro anos. Na época, Bernanke estava tentando acalmar os ânimos. Mas o que ele disse na verdade foi o presságio da quebra que estava por vir.

O discurso, intitulado “A Fartura da Poupança Global e o Déficit das Contas Correntes nos Estados Unidos”, ofereceu uma nova explicação para o aumento rápido do déficit comercial norte-americano no início do século XXI. As causas, segundo Bernanke, não estão na América, mas na Ásia.

Ele mostrou que , em meados da década de 1990, as economias emergentes da Ásia foram os principais importadores de capital, tomando empréstimos no exterior para financiar seu desenvolvimento. Mas depois da crise financeira asiática de 1997-98 (que se apresentou como grande coisa na época, mas em comparação com o que está acontecendo agora parece trivial), estes países começaram a se proteger acumulando grandes reservas em ativos no estrangeiro e, por consequência, exportando capital para o resto do mundo.

O resultado foi um mundo inundado em dinheiro barato, que procurava algum lugar para ir.

A maior parte deste dinheiro foi para os Estados Unidos – daí o déficit comercial gigante, porque o déficit comercial é a outra face da entrada de capital. Mas como Bernanke apontou muito bem, o dinheiro também foi para outros países. Em particular, várias das menores economias europeias receberam um fluxo de capital que, ainda que muito menor em dólares do que aquelas injetadas nos Estados Unidos, eram bem maiores se comparadas ao tamanho de suas economias.

Ainda assim, muito da fartura da poupança global foi parar na América. Por quê?

Bernanke citou “a profundidade e sofisticação dos mercados financeiros do país (os quais, dentre outras coisas, permitiram às famílias acesso fácil à riqueza imobiliária)”. Profundidade, sim. Mas sofisticação? Bem, pode-se dizer que os banqueiros americanos, fortalecidos por um quarto de século de zelo desregulatório, levaram o mundo a encontrar formas sofisticadas de enriquecer a eles próprios ao esconder riscos e enganar investidores.

Muitos dos outros agraciados com esta enxurrada de capital foram sistemas financeiros porcamente regulados e escancarados. Isto pode explicar a algo assustadora correlação entre os elogios conservadores de dois ou três anos atrás e o desastre econômico de hoje. “As reformas fizeram da Islândia um Tigre Nórdico”, declarou um artigo do Instituto Cato. “Como a Irlanda Tornou-se o Tigre Celta” era o título do artigo da Heritage Foundation; “O Milagre Econômico da Estônia” era o título de outro. Todas estas três nações estão em crise profunda agora.

Por algum tempo, a entrada brusca de capital criou a ilusão de riqueza nestes países, exatamente como ocorreu com os proprietários americanos: o preço dos ativos estava subindo, as moedas estavam fortes e tudo parecia bem. Mas bolhas, mais cedo ou mais tarde, sempre estouram e as economias miraculosas de ontem tornaram-se os casos perdidos de hoje, nações cujos ativos evaporaram, mas cujas dívidas continuam de todo reais. E estas dívidas são um fardo especialmente pesado porque a maioria dos empréstimos foi estabelecida em moedas de outros países.

Os danos não são exclusividade dos tomadores originais de empréstimos. Nos Estados Unidos, a bolha do mercado imobiliário estava situada principalmente nas regiões costeiras, mas quando a bolha estourou, a demanda por bens manufaturados, especialmente de carros, desmoronou – o que teve um efeito bastante pesado no coração industrial da América. Da mesma forma, as bolhas da Europa estavam situadas na periferia do continente, ainda que a produção industrial da Alemanha – que nunca teve uma bolha financeira, mas é o coração industrial da Europa – esteja caindo rapidamente, graças ao despencar da exportação.

Se quiser saber de onde veio a crise global, então pense da seguinte forma: assistimos a vingança da abundância.

E a abundância da poupança ainda está por aí. Na verdade, está maior do que nunca, agora que os consumidores subitamente empobrecidos redescobriram as virtudes da parcimônia e o boom imobiliário mundial, que serviu de vazão para todo o excesso de poupança, virou uma perda generalizada.

Uma maneira de ver a situação internacional agora é que estamos sofrendo o paradoxo global da parcimônia: ao redor do mundo, o montante economizado excede a quantia que as empresas desejam investir. E o resultado é um colapso global que deixa todos em situação pior.

E foi assim que nos metemos nesta confusão. E ainda procuramos pela saída.

Paul Krugman

Publicado em Notícias

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