Os Doze Césares

Suetónio, ao apontar um espelho a esses Césares de desviantes prazeres lendários, reflete não apenas a eles mas também a nós: criaturas divididas cuja maior obrigação moral é manter o equilíbrio entre o anjo e o monstro que carregamos conosco, dado sermos ambos. Ignorar esta dualidade conduz inevitavelmente ao desastre.” (Gore Vidal)

O livro de Suetonius “A vida dos Césares”, foi traduzido por Robert Graves. O comentário de Gore Vidal sobre esta tradução é um clássico do ensaísmo.

[…]Gaius Suetonius Tranquillus – advogado e autor de uma dúzia de livros, entre os quais, Vidas de Putas Famosas e Defeitos Físicos da Humanidade (este seria sobre o que?) – trabalhou por um tempo como secretário particular do Imperador Adriano. Presumivelmente foi durante este período que ele teve acesso aos arquivos imperiais, de onde obteve material para Os Doze Césares, seu único livro completo a sobreviver. Suetonius nasceu em 69 AC, o ano dos três Césares Galba, Otho, Vitellius; e cresceu sob os Flavianos: Vespasiano, Titus, Domiciano, seus contemporâneos. Ele também era suficientemente próximo dos seis primeiros Césares para tê-los conhecidos intimamente, pelo menos de Tiberius para frente, e é esta presença no tempo e espaço que dá tamanha vivacidade à sua narrativa.

Suetonius viu a história do mundo entre 49 AC e 96 DC como a narrativa intima de 12 homens que almejaram o poder absoluto. Com curiosidade impressionante ele recolheu as estórias, registando-as sem paixão, apesar de um viés um tanto reacionário. Como seus colegas historiadores, desde Titus Livius até o enfezado mas interessante Dio Cassius, Suetonius era um político reacionário para quem a velha república foi a era da virtude e o Império, implicitamente, não. Mas não é por suas convicções políticas que lemos Suetonius. Ao invés disso, sua graça reside em nos dizer o que queremos saber. Eu me delicio ao ler que Augusto media menos que 1,70 m, louro, vestia saltos em suas sandálias para aparentar ser mais alto e gostava de jogos de azar. Ou aprender que as últimas palavras do ridículo Vespasiano foram “ai de mim, devo estar me tornando um deus”. As estórias, verdadeiras ou não, são divertidas e quando tratam de sexo surpreendentes, até mesmo para leitores pós-relatório Kinsey.

Gibbon, no seu estilo majestoso, lamenta que dos doze Césares apenas Claudius fosse sexualmente “normal”. Desde o oportunismo sexual de Julio César até o sadismo de Nero passando pela pederastia caquética de Galba, as vidas sexuais dos Césares abrangem todos os aspectos do que nossa era pós-medieval nomeia como “anormalidade sexual”. Seria errado, no entanto, descartar, como muitos comentaristas fazem, a ampla variedade da sensualidade dos Césares como simplesmente a depravação de doze homens anormais. Eles eram, antes de tudo, um grupo bastante representativo.

Eles diferiam de nós – e dos seus contemporâneos – apenas no fato do poder, que tornou possível para cada um agir conforme suas fantasias sexuais mais recônditas. Eis a fascinação psicológica de Suetonius. O que homens em tal posição farão? A resposta, aparentemente, é tudo e qualquer coisa.

Alfred Whitehead uma vez observou que a essência de uma cultura é percebida não por aquelas coisas que eram ditas à época, mas pelas coisas que não eram ditas, os pressupostos fundamentais da sociedade, muito óbvios para serem proclamados. É um pressuposto fundamental da América do século vinte que os seres humanos ou são heterossexuais ou, por meio de algum sequestro do crescimento psíquico normal, homossexuais, com muito pouco tráfico para frente e para trás. Para nós, a norma é heterossexual; a família é central; todo o resto é desvio, independente do prazer e das preferências e preocupações morais de cada um. Suetonius revela um mundo muito diferente. Seu pressuposto é que o homem é bissexual e que havendo completa liberdade para amar -ou, talvez mais de acordo com o caso dos Césares, para violar – outros, eles o farão, indo alegremente do macho para a fêmea, ao sabor da fantasia.

Suetonius não está sozinho nesta suposição sobre a variedade do homem. De Platão até a ascensão da Cristandade Paulinia, que tentou colocar uma tampa no sexo, isto está explícito nos escritos clássicos. Comentaristas Cristãos, Freudianos e Marxistas, todos ignoraram este fato da natureza no interesse de suas vias patenteadas para o Reino dos Céus. É uma experiência estranha para um contemporâneo ler sobre a simultânea paixão de Nero por um homem e uma mulher.

Algo parece errado. Deveria ser um ou outro. Não ambos.Este ecletismo sexual é recorrente, uma e outra vez. E embora me pareça que alguns dos Césares preferissem mulheres (Augusto tinha uma predileção particular por ninfetas Nabokovianas), seu entrecruzado sexual é extraordinário pela falta de padrão. Pode-se suspeitar que, apesar da severa legislação moral de nossa época, os seres humanos não sejam diferentes. Se por nada mais, Dr Kinsey revelou, ao seu modo aritmético e detalhista, que nós somos bem menos previsíveis e mansos do que qualquer um suspeitava.

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Um dos poucos aspectos encantadores da dinastia Julio-Claudiana foi a escrita autoral. Todos eles escreveram; alguns escreveram bem. Júlio César, além do seu relato daquela famosa cruzada na Gália, escreveu um Édipo. Augusto escreveu um Ajax, com alguma dificuldade. …Tiberius escreveu Elegia da Morte de Júlio César. O cabeça de vento Claudius, um charmosamente obscuro príncipe, era um pedante devotado que tentou reformar o alfabeto. Ele também foi o primeiro a seriamente olhar para a história Etrusca. Nero certamente é lembrado como um poeta.

Julio Cesar e Augusto foram célebres escritores de prosa; ambos preferiam o rústico Latim antigo. Augusto particularmente detestava o que chamava de estilo “Asiático”, adotado, entre outros, por seu rival Marco Antônio, cujos discursos ele considerava imprecisos e com “fedorentas frases implausíveis”.

Os doze Césares, como homens, tinham pouco em comum além do poder. Mas este pouco era significativo; o medo de uma faca no escuro. Dos doze, oito (talvez nove) foram assassinados. Como Domiciano observou, não muito antes que ele próprio fosse abatido: “Imperadores são necessariamente homens acuados uma vez que apenas o seu assassinato pode convencer o público que as conspirações contra suas vidas são reais”. Numa compreensível tentativa de driblar o destino, eles estudaram presságios, consultaram horóscopos e analisaram sonhos (eles eram engenhosos simbolistas, antecipando Dr. Freud, ele próprio um fã dos Romanos). A visão de vida desde o Monte Palatino (Palatine Hill) não era confortável, embora nenhum dos Césares fosse religioso no sentido do nosso mundo, todos tendiam para o Estóico. Foi Tiberius, com características depressivas, que sublinhou suas situações perigosas quando declarou que era o Destino, não os deuses, que comandava as vidas dos homens.

Afinal de contas, qual foi o efeito do poder absoluto sobre doze homens representativos? Suetonius deixa bem claro: desastre.

Calígula foi certificadamente perverso. Nero, que começou bem, se tornou progressivamente irracional. Mesmo o caráter austero de Tiberius se enfraqueceu. De fato, Tacitus, ao cobrir o mesmo período de Suetonius, observa: “Mesmo após sua enorme experiência com assuntos públicos, Tiberius foi arruinado e transformado pela influência violenta do poder absoluto”. Calígula revelou o jogo quando disse a um crítico,”Tenha em mente que eu posso tratar qualquer um exatamente como eu queira.” E aquela crueldade que é inata nos seres humanos, uma vez dada a oportunidade para tratar os outros como brinquedos , floresceu monstruosamente nos Césares. A descrição de Suetonius sobre o caso de Domiciano é particularmente fascinante. Um homem inteligente, com algum charme, treinado para governar, Domiciano quando primeiro sucedeu ao principado contentou-se em arrancar as asas de moscas, um passatempo infantil que gradualmente perdeu a graça até que, inevitavelmente, ele substituísse as moscas por homens. Sua brincadeira favorita era conversar gentilmente com uma vítima nervosa; então, uma vez que todos os medos fossem alijados, executá-la. Os Césares não eram de todo ignorantes de sua bizarra posição. Há uma carta reveladora, de Tibério para um Senado que se oferecera para aprovar antecipadamente suas futuras ações. Tiberius declinou a oferta: “Tanto quanto minha sanidade mental não me falhe, vocês podem contar com a consistência de meu comportamento; mas eu não gostaria de levantar o precedente de vocês aprovarem cegamente toda ação de um homem; pois o que aconteceria se algo alterasse o caráter deste homem?”

No terror de suas vidas, consumidos por sonhos e presságios, atordoados pela dominação, não é de estranhar que insanidade real fosse um frequente refúgio dos Césares de uma realidade tão intoxicante.

Alexandre, o Grande, era o leitmotiv que unificava estas vidas. Os Césares eram fascinados por ele. Ele era o critério de grandeza. O jovem Júlio César suspirou invejosamente sobre seu túmulo. Augusto abriu o túmulo para encarar longamente a face do conquistador. Calígula roubou a armadura peitoral do cadáver e a vestiu. Nero nomeou sua guarda de “Falange de Alexandre o Grande.” E o significado desta fascinação? Poder pelo poder.Poder pelo bem do poder. Conquista pela conquista. Conquista pelo bem da conquista. Dominação da Terra como um fim em si mesmo: nenhuma visão utópica, sem dissimulação, sem hipocrisia. Eu te derrubo; agora Eu sou o rei do castelo. Porque deveria o jovem Júlio César invejar Alexandre? Não ocorre a Suetonius explicar. Ele presume que qualquer jovem gostaria de conquistar o mundo. E porque Júlio César, um homem de mente de primeira classe, queria o mundo? Simplesmente para tê-lo. Mesmo a Pax Romana resultante não foi uma política calculada mas um acidente afortunado. César e Augusto, os criadores do Principado, representam o desejo nu do poder pelo poder. E embora nossa sociedade tenha mudado muito desde os Romanos (podemos apontar com algum orgulho para Hitler e Stalin, que trouxeram um inferno Neroniano para os nossos dias) nós temos, no entanto, hábitos tão arraigados de dissimular motivos, de negar certa escuridão constante no comportamento humano, que é difícil encontrar um historiador americano de reputação que reconhecerá o fato cru de que um, digamos, Franklin Roosevelt, queria ser Presidente meramente para exercer o poder, para ser famoso e temido.

Para aprender este simples fato, é preciso atravessar um mar de evasivas: história como sociologia, líderes como professores, benevolência branda como uma força motivadora, quando, finalmente, o poder é um fim em si mesmo, e a compulsão instintiva para prevalecer o mais importante traço humano, a força necessária sem a qual nenhuma cidade seria construída, nenhuma cidade destruída. Ainda que muitos religiosos e sociólogos contemporâneos, fazendo as vezes de historiadores, proporão, a sério: “Se não tivesse havido um Júlio César então, o Zeitgeist (espírito da época), teria provido um outro igual a ele”, muito embora seja bastante evidente que se este César não tivesse existido ninguém ousaria inventá-lo. Eventos mundiais são obra de indivíduos cujos motivos são frequentemente frívolos, mesmo casuais. Não tivesse Claudius querido uma vitória fácil para que pudesse celebrar um triunfo em Roma, Bretanha não teria sido conquistada em 44 DC. Se Bretanha não fosse colonizada no primeiro século…a cadeia de casualidade é longa.

Compreende-se porque o papel do indivíduo na história seja instintivamente rebaixado por uma sociedade que deveria ser igualitária. Nós tememos, com razão, sermos vítimas de aventureiros impulsivos. Para evitar isso nós criamos o mito da massa inelutável (“dirigido externamente”) que governa tudo. Ciência, nos dizem, não é uma questão de pesquisa individual mas de esforço coletivo.

Mesmo a superfície tormentosa das nossas eleições mascara uma indiferença fundamental para a personalidade humana: se não é este homem, então aquele outro; é tudo o mesmo, vida que segue. Até certo ponto há alguma virtude nisto; e embora ninguém possa negar que haja um cinza prevalecente na nossa terra plácida, é certamente melhor ser não dirigido por medíocres do que escravizado por Césares. Mas negar a natureza sombria da personalidade humana não é apenas tolo, como perigoso.

Nossa insistência em capitular o desejo privado (“dirigido internamente”) em favor da concepção da raça humana como uma cultura bacteriana na corrente do tempo, não afetada pelas ações individuais, nos tornará vulneráveis não apenas ao tédio, este sentimento de falta de sentido que, mais do que qualquer outra coisa,  caracteriza nossa época, mas vulneráveis ao primeiro messias que ofereça aos jovens entediados alguma perspectiva esplendorosa, alguma certeza Cesariana. Este é o perigo político, e é real.

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A maior parte do mundo hoje é governada por Césares. Homens cada vez mais são tratados como coisas. A tortura está espraiada. E, como Sartre escreveu, no seu prefácio ao livro de Henri Alleg sobre a Argélia “Qualquer um, a qualquer tempo, pode igualmente descobrir-se como a vítima ou como o carrasco”.

Suetónio, ao apontar um espelho a esses Césares de desviantes prazeres lendários, reflete não apenas a eles mas também a nós: criaturas divididas cuja maior obrigação moral é manter o equilíbrio entre o anjo e o monstro que carregamos conosco dado sermos ambos. Ignorar esta dualidade conduz inevitavelmente ao desastre.

1959

O original em inglês pode ser visto aqui

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