Mídia de matar

DITADURA & COLABORACIONISMO
Paulo Vasconcellos

“Trata-se de ‘Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988’.(*) A tese de doutorado da historiadora carioca Beatriz Kushnir, 35 anos, aprovada com louvor em outubro no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), lança suspeitas sobre um dos mitos cultuados pela imprensa brasileira: o de que jornais e jornalistas foram quixotes na luta contra o regime militar. O trabalho tem 473 páginas e é resultado de cinco anos de pesquisas. Beatriz mirou no que viu e acertou no que não viu. Começou como um estudo da censura à imprensa alternativa e acabou desvendando o grau de colaboracionismo com a ditadura incrustado em algumas redações.
‘Assim como nem todas as redações eram de esquerda, nem todos os jornalistas fizeram do ofício um ato de resistência ao arbítrio’, diz Beatriz Kushnir. ‘Há um desconforto diante da desmistificação generalizante de que os jornalistas combateram a ditadura.’ O trabalho demonstra que os jornais que tiveram um censor na redação não foram tantos assim, que a primeira profissão de parte dos censores era o jornalismo e, pior, que havia um elevado grau de promiscuidade nas relações entre alguns jornalistas e os órgãos de repressão. Beatriz não foge à polêmica. Para a tese de mestrado na Universidade Federal Fluminense (UFF) ela escolheu a história das prostitutas judias que se organizaram em associações de ajuda mútua e ficaram conhecidas como polacas, citadas nos versos de Aldir Blanc para a música ‘O mestre-sala dos mares’ – não por acaso uma das vítimas da censura, que vetou o título original: ‘O almirante negro’.
A historiadora começou a derrubar as ilusões da imprensa brasileira ao pesquisar os documentos do Departamento de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal no Arquivo Nacional, em Brasília, entrevistando 11 censores – exceção para Solange Hernandes, a popular Solange Tesourinha, que mandava cortar tudo o que é filme, livro, texto de teatro e versos de músicas – e uma penca de jornalistas. O porão que escondia os instrumentos legais da censura abrigava também jornalistas de formação. ‘Foi tentando perceber quem eram os censores que me surpreendi ao encontrar já no primeiro grupo deles dez jornalistas.’ Descobriu ainda policiais de carreira que atuaram como jornalistas colaborando com a repressão.
Os três primeiros capítulos mostram a evolução da censura desde a Proclamação da República. É iguaria rara, mas o melhor vem depois. Da posição cínica defendida por um jornal do Rio, em 1976, em defesa de uma ‘censura inteligente’ – feita por pessoal mais bem preparado política e intelectualmente – à constatação de que, na prática, os jornais optaram preferencialmente pela autocensura ao encampar as notas da Polícia Federal transmitidas pelo Serviço de Informação do Gabinete (Sibag), vinculado ao gabinete do ministro da Justiça, mas sem registro no organograma dos órgãos federais – portanto, clandestino. A alternativa era a censura prévia.
Os censores estiveram nas redações para cortar os ‘excessos’ em poucos periódicos. No ‘O Estado de S. Paulo’, do AI-5 a janeiro de 1975, e na ‘Tribuna da Imprensa’, em um período não contínuo, de 1968 a 1978. Na imprensa alternativa freqüentaram ‘O Pasquim’, de novembro de 1970 a março de 1975, ‘O São Paulo’, de junho de 1973 a junho de 1978, ‘Opinião’, de janeiro de 1973 a abril de 1977, e ‘Movimento’, de abril de 1975 a junho de 1978. Na Veja, de 1974 a junho de 1976. A revista foi censurada ainda no berço, logo no número 5, em 1968. Durante todo o governo do general Emílio Garrastazu Médici seria uma das vítimas favoritas do regime. A edição com a capa ‘O presidente não admite torturas’ foi proibida de chegar às bancas.
‘Oliveiros, hoje nós não vamos aí.’
O governo do general Ernesto Geisel, com a promessa de abertura, ainda que lenta, gradual e segura, não deixou de estabelecer os parâmetros do que considerava permitido – mesmo que nos bastidores os ministros Golbery do Couto e Silva, da Casa Civil, e Armando Falcão, da Justiça, mantivessem diálogos com jornalistas anunciando a retirada da censura das redações. As notas proibitivas continuaram a ser transmitidas até fins de 1975. Nos primeiros dias de abril, o número 300 de ‘O Pasquim’ trazia o editorial intitulado ‘Sem Censura’, escrito por Millôr Fernandes, notificando ao leitor que desde 24 de março o tablóide se encontrava livre da censura prévia. Depois de um telefonema do Dr. Romão, o último dos quase 30 censores que o jornal teve em cinco anos, estava decretado que a responsabilidade passava a ser da redação. Sentença semelhante recebeu o então secretário de redação de ‘O Estado de S. Paulo’, Oliveiros S. Ferreira. ‘Eles ficaram do AI-5, em 13 de dezembro de 1968, até 3 de janeiro de 1975, um dia antes do centenário do jornal’, relembra Ferreira. Foi quando ele recebeu um telefonema do chefe dos censores:
– Oliveiros, hoje nós não vamos aí.
Oliveiros:
– Mas, então, quem responde pelo jornal?
– Ah, isso é problema seu. Até logo!
Um ano antes, o humorista Ziraldo, do ‘Pasquim’, havia escrito uma carta ao ministro da Justiça, Armando Falcão, pedindo a volta da censura do jornal para o Rio, que havia seis meses, em represália, era feita em Brasília para atrasar propositadamente o fechamento das edições. Ao fim da carta, além da assinatura, um desenho: a mão de um homem que se afogava e a palavra ‘help’. ‘Millôr Fernandes já havia advertido em seu editorial que o rompimento repentino da censura embutia a noção de que deixar de intervir era uma concessão que deveria ser paga com responsabilidade’, lembra Beatriz. ‘Sem censura não quer dizer com liberdade’, terminava o texto de Millôr.
A censura espalhou vítimas para todos os lados. O cineasta francês Jean Luc Godard foi uma delas. No regime militar teve proibido o filme ‘A chinesa’. Em 1984, a censura a outro de seus filmes, ‘Je vous salue, Marie’, geraria protestos calorosos, a demissão do ministro da Justiça, na época o deputado federal pernambucano Fernando Lyra, e a exposição da permanência de atos censórios em um período de suposta redemocratização. Alguns jornais e jornalistas que não aderiram à resistência se bandearam para o outro lado. ‘Cães de guarda’ revela o papel duplo de uns e outros. Jornalistas que foram censores federais – e também policiais – e vice-versa dividiam as redações com as chamadas bases esquerdistas que, segundo o regime militar, sempre as dominaram. ‘No Brasil da censura existiam também os jornalistas colaboracionistas’, afirma Beatriz. ‘Eles foram verdadeiros cães de guarda.’
Um deles, segundo a tese, tomou conta do jornal ‘Folha da Tarde’, do Grupo Folha da Manhã, de 1967 a 1984. Todo o quarto capítulo narra a trajetória do jornal nos seus dois períodos: do renascimento, em 1967, até o AI-5. Beatriz Kushnir investigou a redação da ‘Folha da Tarde’ de 1967, que estava vinculada à cobertura dos movimentos políticos da época e tinha em seus quadros militantes de esquerda, até ser conhecida como ‘Diário Oficial da Oban’ (Operação Bandeirantes). ‘Cheguei à história da ‘Folha da Tarde’ por acaso’, conta. A historiadora tentava uma entrevista com o senador Romeu Tuma (PFL-SP), diretor do Departamento de Polícia Federal que rompeu com a tradição de militares no cargo desde a sua criação, em 1964. Chegou a entrar em contato com o seu assessor de Imprensa, em São Paulo, mas não conseguiu agendar um encontro. Ao entrevistar o jornalista Boris Casoy, âncora do Jornal da Record, para compreender os reflexos da censura na redação da ‘Folha de S. Paulo’, que ele dirigia na época, ficou sabendo quem era o assessor do senador e o significado da frase ‘o jornal de maior tiragem’.
Nos dois casos bateu na figura de Antonio Aggio Jr. A queda com o AI-5 do jornalista Jorge Miranda Jordão, hoje em ‘O Dia’, da direção de redação da ‘Folha da Tarde’, abriu espaço para outro grupo de profissionais. Antonio Pimenta Neves, que mais de 30 anos depois responde a processo pelo assassinato da namorada, era um deles. Aggio, ex-editor do jornal ‘Cidade de Santos’, viria depois. ‘Sob o comando dele o jornal deu uma guinada à direita’, diz Beatriz. ‘O clima de delegacia policial resistiu 15 anos e o jornal ganhou o apelido de ser o de ‘maior tiragem’ em São Paulo, não por causa da circulação, mas pelo número de tiras (policiais) que empregava.’
Acusado de colaborar, Aggio diz que também foi parar na Oban
Aggio rebate. ‘Essa tese é um negócio tortuoso para garantir o título de doutora à historiadora.’ Segundo o assessor do senador Tuma, a reformulação da ‘Folha da Tarde’ e o Projeto Folha, de 1984, quando o jornal passaria por nova mudança, nada teve a ver com ideologia, mas com mercado. ‘Nunca houve uma redação mais democrática que a da Folha da Tarde. Nunca se perguntou a coloração ideológica de ninguém por lá. Muitos esquerdistas trabalham no jornal até hoje’, afirma o jornalista. Aggio diz que todo o noticiário policial e militar tinha como fonte a Agência Folha e era publicado por todos os jornais do grupo. ‘Uma vez houve um incidente com o pessoal da luta armada em Osasco e como a ‘Folha da Tarde’ deu a notícia fui parar na Oban e no II Exército. Se fosse ligado à repressão não teriam me chamado para prestar esclarecimentos.’
‘Havia pressão psicológica e armada, além de econômica, mas nunca a família Frias me pediu para mudar a linha do jornal para aderir ao regime. Obedecíamos ao que a censura impunha porque não havia saída. Depois que deixei a direção do jornal, ele mudou de linha editorial’, diz Jorge Miranda Jordão, antecessor de Antonio Aggio na ‘Folha da Tarde’. ‘A imprensa nunca foi quixote, mas também não chegou a ser um Exército de Brancaleone. Talvez uns dez por cento das redações apoiassem o regime até por convicção política.’
‘Cães de guarda’ remexe em histórias nada edificantes. É o caso de uma manchete estampada pela ‘Folha da Tarde’ em abril de 1971 anunciando a morte do guerrilheiro Roque em confronto com a polícia paulistana. Roque era o codinome do metalúrgico Joaquim Seixas, preso com o filho Ivan, então com 16 anos. Militantes do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), os dois tinham sido presos acusados pelo assassinato do industrial Enning Boilesen, um dos financiadores da Operação Bandeirantes, apenas um dia depois do crime, e foram torturados na Oban. Ivan leu a manchete sobre a morte do pai em uma banca de jornal ao ser levado pelos policiais para um ‘passeio’. Na volta ainda encontrou Joaquim vivo. Ele seria morto, de fato, horas depois. Os jornais do dia seguinte se limitariam a reproduzir a nota oficial dos órgãos de repressão com a notícia que a ‘Folha da Tarde’ havia estampado na véspera com detalhes, segundo a tese, como se tivesse repórter no local.
‘Toda a caçada ao capitão Carlos Lamarca, que havia desertado do Exército levando armas e munições do quartel de Quintaúna, em São Paulo, comandado pelo coronel Antônio Lapiane, tio de Ággio, que até hoje é vinculado à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, vinha carregada de tintas fortes e se referia ao guerrilheiro como ‘louco’, afirma Beatriz. ‘A esquerda atribui à ‘Folha da Tarde’ a legalização de muitas mortes em tortura e `assassinatos acidentais´ de militantes em confronto com a polícia. Se sumissem todos os jornais que circularam um dia depois da missa ecumênica pela morte do jornalista Wladimir Herzog e só restasse a ‘Folha da Tarde’, não se saberia de nada. A cerimônia parou São Paulo, mas a FT não deu uma linha.’
A relação entre jornalistas e policiais já tinha sido exposta por Percival de Souza, repórter setorista de Polícia de ‘O Estado de S. Paulo’ e do ‘Jornal da Tarde’ e autor de biografias de figuras sombrias da ditadura, como o delegado Sérgio Paranhos Fleury, o temido e sanguinário torturador do Deops do Largo General Osório, em São Paulo, desenhado por ele como um amante adolescente. ‘Cães de guarda’ vai além. Esmiúça até à sarjeta o papel da imprensa na ditadura. Para se adaptar à autocensura não faltaram estratégias peculiares. A editora de uma revista de circulação nacional preparou um funcionário para dar curso aos censores de como realizar a tarefa. Uma rede de televisão contratou ex-censores para delimitar o permitido. Por abrigar jornalistas colaboracionistas algumas redações ficaram conhecidas como ‘ninho de gansos’. Era assim que eles eram tratados nos órgãos de repressão. Os jornalistas da ‘casa’ que cobriam o Deops não passavam pela revista a que eram submetidos os colegas com menos intimidade com os porões da ditadura – seguiam direto por uma entrada lateral, reservada aos policiais, apelidada de ‘passagem dos gansos’.
‘Muitos jornalistas trocaram a narrativa de um acontecimento pela publicação de versões que corroborassem o ideário repressivo’, diz Beatriz. ‘Fiéis aos seus donos, os cães de guarda farejaram uma brecha e, ao defender o castelo, nos venderam uma imagem errada. Quando o tabuleiro do poder mudou, muitos desses servidores foram aposentados, outros construíram para si uma imagem positiva e até mesmo heróica, distanciando-se do que haviam feito. Outros tantos se readaptaram e estão na mídia como sempre.’ Talvez alguns jornais brasileiros nunca tenham se aproximado tanto da imagem de papel de embrulhar peixe.

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“CÃES DE GUARDA” FALA DA MÍDIA E DE JORNALISTAS QUE COLABORARAM COM A DITADURA MILITAR
Atualizado em 15 de fevereiro de 2008 às 19:07 

Publicado em 15 de fevereiro de 2008 às 14:30
DO JORNAL UNIDADE, DO SINDICATO DOS JORNALISTAS DE SÃO PAULO

“Lançado pela editora Boitempo o livro que, certamente, tomará de assalto as rodas de discussão dentro das redações. É a edição da tese de doutorado da historiadora Beatriz Kushnir, ‘Cães de Guarda: Jornalistas e Censores do AI-5 à Constituição de 1988’.(*)
Até agora, a imprensa ignorou por completo o trabalho, fruto de tese já defendida com sucesso no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Beatriz é mestre em História pela Universidade Federal Fluminense e sua tese pesquisou a postura colaboracionista de jornalistas e órgãos de imprensa durante a ditadura militar pós-68.
Em sua tese, Beatriz mostra a estreita relação que houve naquele período entre jornalistas e policiais, como também investiga os estratagemas da direção das empresas de comunicação, ao aceitarem praticar a autocensura, como ‘sugeria’ o governo militar.
O estudo focaliza a relação dos jornalistas com os censores no Brasil de 1968 a 1988. Ela demonstra, com todas as tintas, a existência de jornalistas que foram censores federais, e que também foram policiais enquanto jornalistas nas redações. Escrevendo nos jornais, ou riscando o que não poderia ser dito ou impresso, colaboraram com o sistema autoritário daquele período. Ela relata: ‘Assim como nem todas as redações eram de esquerda, nem todos os jornalistas fizeram do ofício um ato de resistência ao arbítrio’.
Para realizar seu trabalho acadêmico, privilegiou o período do AI-5 à Constituição de 1988. Recuou a março de 64 e à legislação censória no período republicano.
Ela focou sua pesquisa nos jornalistas de formação e atuação, que trocaram as redações pela burocracia e fizeram parte do DCDP (Departamento de Censura de Diversões Públicas), órgão subordinado ao Ministério da Justiça, cargo de Técnicos de Censura. Outro foco da pesquisa foram os policiais de carreira que atuaram como jornalistas, colaborando com o sistema repressivo e censor do pós-64. Para encontrar esse grupo, Beatriz pesquisou a trajetória do jornal Folha da Tarde, do Grupo Folha da Manhã, de 1967 a 1984. Ela teve acesso ao Banco de Dados da Folha, ao DEDOC da Editora Abril, aos arquivos pessoais do jornalista José Silveira (Jornal do Brasil) e da jornalista Ana Maria Machado (Rádio JB). Entrevistou 19 jornalistas que passaram pela FT, onze censores – só dois autorizaram a divulgação de seus nomes, e um grupo de 26 jornalistas, entre eles Bernardo Kucinski, Mino Carta e Jorge Miranda Jordão.
Dez jornalistas, dez censores
A historiadora conta, em uma passagem da tese, que os dez primeiros censores que estiveram em Brasília, quando da mudança da Capital, eram jornalistas. Eram profissionais que foram transferidos para as redações de Brasília e lá acumularam cargos na burocracia do Estado, situação comum à época. Mas eles preferiram ficar com apenas uma atividade. Dez jornalistas optaram pelo trabalho no Departamento de Censura, onde se ganhava mais. Dois deles escreveram um livro explicando aos censores como se deve censurar e quais os artigos que se deve cortar.
O caso Folha da Tarde
Um dos episódios destacados pela tese de Beatriz Kushnir narra a trajetória da Folha da Tarde. Segundo a tese, o jornal foi o reduto, entre 1967 e 1984, de um grupo de jornalistas colaboracionistas, os chamados ‘cães de guarda’, que dirigiram a redação como uma delegacia de polícia. Na epóca, a FT era chamada no meio jornalístico como o jornal de maior ‘tiragem’, uma ironia à grande presença de ‘tiras’ na redação.
Em 1967, a FT renasce sob o comando de Miranda Jordão – que hoje dirige a redação de O Dia, no Rio de Janeiro – para fazer frente ao Jornal da Tarde. Sua redação se caracteriza por abrigar bons jornalistas, muitos deles simpatizantes da esquerda. Essa fase não foi longa. Finalmente, com o AI-5, Miranda Jordão é demitido e assume a redação Antonio Pimenta Neves e, posteriormente, Antonio Aggio Jr., hoje assessor de imprensa do senador Romeu Tuma. Aggio vinha do jornal Cidade de Santos.
Segundo a tese, durante uma década e meia o jornal ficou sob o comando da direita e muitos dos seus jornalistas tinham cargos na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo.
Durante esse período, alguns fatos marcaram a redação. A prisão de Frei Betto, em 11 de novembro de 1969, foi minimizada pelo jornal, que não citou uma importante passagem em sua biografia: Frei Betto foi chefe de reportagem da Folha da Tarde.
No episódio Vladimir Herzog, assassinado nos porões da OBAN (Operação Bandeirante) em 25 de outubro de 1975, a FT ignorou por completo a missa ecumênica realizada na Catedral da Sé, alguns dias depois da sua morte.
Outra prática, que se estendeu a outros órgãos de imprensa, mas foi exemplar na FT, foi a de transmitir integralmente a versão do Estado para desaparecimentos e assassinatos, como no caso de uma manchete de abril de 1971 que anunciava a morte do guerrilheiro Roque, em confronto com a polícia de São Paulo. Roque era o codinome do metalúrgico Joaquim Seixas, que havia sido preso com o filho Ivan Seixas, hoje jornalista. Os dois eram militantes do MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes), e tinham sido acusados de matar o industrial Enning Boilesen, um dos financiadores da OBAN. Foram presos e torturados.
Num certo dia, Ivan foi levado pelos policiais para um ‘passeio’ fora da OBAN e leu em uma banca de jornal a notícia da morte do pai. Quando voltou do ‘passeio’ ainda encontrou seu pai vivo. Joaquim Seixas viria a morrer horas depois. Os jornais do dia seguinte reproduziram friamente a nota oficial dos órgãos de repressão, mas a FT havia publicado a notícia um dia antes, com detalhes. Muitos atribuem à FT a legalização de mortes em tortura.
Além do caso FT, a tese mostra como redações, entre 1972 e 1975, ‘acatavam’ os bilhetinhos do Sigab (Serviço de Informação do Gabinete), que notificavam diariamente os jornais sobre o que se podia e o que não se podia publicar.
Beatriz cita o professor Bernardo Kucinski, que lembra: ‘A maior parte da grande imprensa brasileira aceitou, ou se submeteu a esse pacto. Para Médici, era melhor que o próprio jornalista se autocensurasse’.
As empresas escolheram então os seus ‘quadros de confiança’. Por abrigar jornalistas colaboracionistas algumas redações ficaram conhecidas como ‘ninhos de gansos’. Os jornalistas de confinça que cobriam o Deops, por exemplo, não passavam pela revista e seguiam direto por uma entrada lateral, reservada aos policiais, apelidada ‘passagem dos gansos’.
‘A censura para mim é sempre política’
UNIDADE – Qual a intenção inicial de sua pesquisa?
Beatriz – Eu tinha planejado fazer uma tese sobre a apreensão de imprensa clandestina pelo aparelho do DOPS. Comecei a trabalhar com essa documentação em Brasília, há toda a documentação do Departamento de Censura de Diversões Públicas. Mas a partir daí, percebi que eu podia pensar a censura diferentemente do que havia sido trabalhado. Não como os jornalistas receberam os censores na redação, mas quem eram esses censores, que tipo de trabalho eles faziam, ou seja, a censura contando a sua própria história. É o que faço nos três primeiros capítulos da tese.
UNIDADE – Como surgiu o interesse pelo caso Folha da Tarde?
Beatriz – Num determinado momento Maurício Maia, filho do Carlito, me contou como os órgãos de imprensa publicavam notícias falsas de mortes de militantes, e me chegou a história do Ivan Seixas, que era um militante político do MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes), um braço da ALN (Aliança Libertadora Nacional). Ele é preso com o pai, são levados para a OBAN (Operação Bandeirante) e são torturados. O Ivan é levado para dar ‘uma volta’ e fora da prisão recebe uma informação de que o pai morreu, noticiada pela Folha da Tarde. Quando ele volta à OBAN o pai ainda está vivo, só morreria horas depois. A FT foi considerada o diário oficial da OBAN. A Folha da Tarde é um jornal que renasce em 1967, com o Miranda Jordão, para ser um jornal de oposição ao Jornal da Tarde. Depois do AI-5, ela se torna cada vez mais à direita. O Miranda foge pela fronteira, o Frei Betto, que integrava a equipe do jornal, também sai. Aí assume Antonio Ággio Jr. Tento mostrar como é falsa essa imagem de que a imprensa combateu arduamente a censura. Isso é uma coisa muito delicada para os jornalistas. É delicado perceber que havia autocensura nas redações. A Folha da Tarde se prestava muito para se perceber isso. Se você perceber realmente quando os jornais tiveram censores dentro da redação, então você nota que a autocensura funcionou muito mais do que o censor. Você tem poucos censores nas redações da grande imprensa. Eles estavam na imprensa alternativa.
Gosto muito de uma matéria do Jânio de Freitas, sobre os 30 anos do AI-5, quando ele diz que 30 anos depois são de novo os mesmos jornalistas que estão contando a sua história, e 30 anos depois eles contam a história que eles querem.
UNIDADE – Você quantificou o número de jornalistas que poderiam ter se envolvido com o colaboracionismo? Ou se deteve mais no caso da FT?
Beatriz – Eu não tive essa preocupação de quantificar. A Folha da Tarde é um estudo de caso nos dois últimos capítulos da tese. Mas o que acontece naquela redação? Durante um ano e pouco ela é uma redação de esquerda e durante quinze anos ela vai se tornar uma redação extremamente de direita. Existiam nos anos 70 uns casos que se chamavam desbundes, que eram presos políticos que são presos e depois colocados na televisão para fazer um mea culpa. Alguns desses mea culpa vão se tornar jornalistas da Folha da Tarde, mostrando um pouco dessa relação tão permissiva.
UNIDADE – Conte o que aconteceu com a Folha de S. Paulo e Frias em 1977.
Beatriz – Em 1977, o Boris Casoy assume a redação da Folha. São tirados todos os nomes dos Frias do expediente, que só vão ser recolocados no jornal em 1984, na época das Diretas. É toda uma jogada de marketing da Folha. Se você repensar hoje o Projeto Folha, ele está muito longe de qualquer análise que diga: ali tínhamos uma redação neutra. Mas as pessoas continuam lendo o projeto Folha como isso. Como um momento em que a Folha vai sair de tudo isso como se nada desse passado tivesse a ver com a família Frias, e vai entrar limpa para a história, nesse momento redemocrático do País (as Diretas), o que não é verdade.
UNIDADE – Como os jornalistas que já leram a sua tese a receberam?
Beatriz – A tese fez muita gente pular. Muitos jornalistas não aguentam ver. Por mais que sejam críticos, preferem dizer: o historiador errou na sua análise.
UNIDADE – Durante a elaboração da tese, foi difícil a relação historiadora-jornalistas?
Beatriz – Num primeiro capítulo eu faço uma longa discussão entre jornalistas e historiadores. Como nós dois estamos fazendo uma história do tempo presente. Só que às vezes o jornalista não percebe que ele é nossa fonte, ele não faz uma reflexão. Vocês fazem a história do imediato e a gente faz o que se chama uma história do tempo presente, que é uma reflexão do tempo presente. O que o jornal faz é uma história do instantâneo, e o historiador vai usar aquilo como fonte. Muito pouco da imprensa você tem como espaço de reflexão. Você não tem mais isso hoje em dia. No momento as revistas falam em comportamento, há muito pouca reflexão.
UNIDADE – Ao escrever a tese você se desiludiu com a imprensa e com os jornalistas?
Beatriz – O momento dessa tese é um momento de desilusões. Não existe esse jornalista quixotesco. Ou melhor, não que ele não exista. Ele existe pontualmente, mas não é o que paira na maioria da imprensa.
UNIDADE – Você encontrou dificuldades para editar a tese?
Beatriz – Várias editoras top de linha a pegaram e disseram: você não entrevistou a família Frias. (Os Frias se negaram a falar com Beatriz) A Boitempo foi muito legal. Aceitou dividir a tese em dois livros. Queria escrever mais um capítulo com as 60 horas que eu tenho de entrevista com os censores e não cabia na tese, e ela topou.
UNIDADE – Você fez uma divulgação grande da tese e deu várias entrevistas que não saíram na grande imprensa. Isso é censura?
Beatriz – É uma censura. É mais fácil denegrir um trabalho do que você tentar dialogar com ele.
UNIDADE – No momento do assassinato Herzog como se comportou a imprensa?
Beatriz – A Veja foi proibida de falar sobre o Herzog. Tem um editorial do Mino no qual ele escreve, em dois parágrafos, que ele tem uma dívida com a população naquele momento, porque não está podendo contar uma coisa, e ele espera que a visita do Geisel a São Paulo possibilite que um dia a Veja possa resgatar aquela não-fala, naquele momento. Não-fala é não poder dizer que o Herzog havia sido assassinado. O ano de 75 é o momento em que Geisel vem com o discurso da abertura. Naquele momento os jornais continuam sendo censurados, a autocensura continua presente nas redações. É uma falsa idéia que a censura está acabando naquele período, não é verdade.
UNIDADE – Quando falamos de censura devemos falar dos jornalistas ou dos donos dos jornais?
Beatriz – Não dá pra se eximir. Quem tem mais culpa? É o dono do jornal, é o jornalista? São circunstâncias que se dialogam. Não estou dizendo que todo jornalista exerceu um papel de colaboração, nem que todas as empresas de jornalismo foram colaboracionistas. Eu analisei o caso específico de um grande jornal, mas que você pode estender para outros casos.
Esse termo do colaboracionismo é um termo que doi de ouvir. Isso reflete muito do país, da formação, dos processos econômicos.
UNIDADE – Muita gente preferiu não dar depoimento para a tese, não foi?
Beatriz – Com os Frias eu fiz várias investidas. Alegaram que não podiam, não tinham tempo. Como um empresário que vende esse tipo de serviço se recusa a conversar sobre isso? A minha negociação com o Ággio levou meses e meses, e depois que ele me deu uma longa entrevista, se sentiu tão mal que me mandou um fax, no dia seguinte, sobre o que ele entendia de política. É aquela contradição da contradição.
UNIDADE – A censura está presente em toda a trajetória republicana brasileira?
Beatriz – Eu tento mapear a censura na República, mostrando que ela não é exclusiva de momentos de exceção. No Brasil, mesmo em momentos democráticos ela existiu.
UNIDADE – Qual é a cara dessa censura?
Beatriz – Ela tem uma capa de moral e bons costumes, que em períodos de exceção se divide em política. Mas para mim a censura é sempre política, porque ela está sempre querendo regular o ato político do cidadão.”
PS: O livro e a matéria são antigos. Trouxe de volta o assunto para mostrar que mídia ruim, de fato, “mata”

Publicado em Notícias

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