Olho por olho dente por dente – as contas erradas

Publicado em 28/12/2008, modificado em 07/01/2009

A lei de talião, presente na codificação de leis antigas (código de Hamurabi, Exôdus, Levítico, Deuterônimos e Torá) teve um sentido progressista ao limitar a vingança tal (talis, talião) qual a ofensa recebida. 

A filha de um eminente chefe de uma clã fôra molestada por um jovem de outra clã? Que tal uma expedição punitiva e decepar a cabeça de todas as jovens da clã originária da ofensa?

A evolução da noção de Direito indicaria a superação da noção de vingança.

Curiosa a nossa capacidade para conviver com paradoxos. A lei de talião teria efeitos de contenção quando olhamos as ações dos Estados beligerantes.

As bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki não guardam proporção com Pearl Habour. Evidemente foram crimes de guerra, sequer julgados pela narrativa do mais forte, do vitorioso.

Desde o início da intifada nos territorios palestinos ocupados em setembro de 2000, morreram 430 civis israelenses nas ações armadas de  todas as facções da resistência palestina, conforme a “List of Israeli civilian casualties in the Second Intifada” da Wikipedia.

No mesmo  período, as Forças Israelenses de Ocupação assassinaram mais de cinco mil civis palestinos, entre eles quase 900 crianças.

Segundo o último relatório do centro israelita de informação sobre direitos humanos nos territórios ocupados, B’tselem, 11 civis israelenses, quatro deles crianças, foram mortos por ataques de foguetes caseiros (Qassam rockets), lançados a partir do território cercado de Gaza.

Agora mesmo, neste 48º natal desde o conflito árabe israelense de 1967, a resposta dos combatentes de Gaza contra o maior ataque de Israel na faixa de Gaza, causou uma única, e importante, sem dúvida, morte entre civis israelenses que ocupam território palestino.

Tudo isto é muito triste. 

Por muito tempo, até por experiência própria, achei que os que sofreram humilhações, os desvalidos, torturados, as vítimas de preconceitos seriam mais capazes de compreender o outro, recusar o papel de algoz.

Saramago, de certa forma, faz a mesma pergunta:

“Israel quer que todos nós nos sintamos culpados, direta ou indiretamente, pelos horrores do Holocausto. Israel quer que renunciemos ao mais elementar juízo crítico e nos transformemos em um ecoar dócil de sua vontade. Israel quer que reconheçamos ‘de jure’ o que, para eles, é já um exercício ‘de facto’: a impunidade absoluta. Do ponto de vista dos judeus, Israel não poderá ser nunca submetido a juízo, porque foi torturado, submetido a gases e incinerado em Auschwitz. Pergunto-me se aqueles judeus que morreram nos campos de concentração nazistas, aqueles que foram perseguidos ao largo da história, aqueles que morreram nos ‘pogroms’, aqueles que foram esquecidos nos guetos, me pergunto se essa imensa multidão de desgraçados não sentiria vergonha ao ver os atos infames que estão cometendo seus descendentes. Pergunto-me se o haver sofrido tanto não seria o melhor motivo para não fazer sofrer aos demais.

As pedras de Davi mudaram de mãos, agora são os palestinos que as jogam. Golias está do outro lado, armado e equipado como nunca esteve soldado algum na história das guerras, a não ser, claro está, o amigo norte-americano. Ah, sim, as horrendas matanças de civis causadas pelos chamados terroristas suicidas… Horrendas, sim, sem dúvida; condenáveis, sim, sem dúvida, mas a Israel fica muito que aprender se não é capaz de entender as razões que podem levar um ser humano a transformar-se em bomba”.

Infelizmente, não há como não reconhecer, a população de Gaza está confinada num gueto. O Gueto de Gaza. Foram construídos muros e cercas. A entrada de mercadorias, o abastecimento, até de água, fica ao critério de Israel e do corrupto governo do Egito.

Em honra aos que tombaram no gueto de Varsóvia, digo que o ajuste de contas do Estado de Israel com o Hamas não erra apenas na aritmética de hoje. Desonra o sofrimento dos seus antepassados, especialmente os 380 mil judeus que foram confinados em Varsóvia.

 

Publicado em Política

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