Confissões de um especulador chinfrim

Foi por tristeza e foi por amor que vierei especulador. Rima pobre, sentimento vasto.

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Os poucos anos em que prestei serviço público foram anos de muitas alegrias e felicidade. No PRODERJ, governo Benedita, e no governo federal, no programa bolsa-família.

Serviço movido pela paixão, é bom demais.

Tive ainda a oportunidade de sair do governo federal em solidariedade à Ana Fonseca, que não aceitou se dobrar às conveniências políticas para manter o cargo de secretária executiva, no comando de um programa que ela tanto amava. Esta é uma outra história, que será contada em outro post.

Pelas mãos de Ana fui apresentado ao senador Mercadante e trabalhei no gabinete da liderança do governo no senado.

Houve satisfação enquanto ali trabalhei com Gerson Gomes, economista calejado, velho combatente internacional (benefícios secundários do exílio forçado), dono de um dos corações mais generosos que jamais encontrei. 

Depois, pelas contigências da vida, fiquei num gabinete, ainda o da liderança do governo, que passou a ser comandado pelo PMDB. 

Salário bom, muito bom. Satisfação zero. Sentia-me inútil, descartável.

Como sou um tanto venal, confesso que tentei manter-me por lá.

A cabeça começou a doer. Zumbidos terríveis. Picos de pressão alta. 

Partes do meu corpo recusaram a ordem da parte venal da minha consciência.

Fiz ressonância magnética do cérebro. Exames cardíacos. Xeretei meu pulmão. Nada que objetivamente pudesse me colocar num auxílio-doença.

Não tive a coragem de recorrer à psiquiatria.

Suponho que por preconceito introjetado no fundo da minha alma. Ou não, talvez apenas uma réstia de vergonha na cara. Afinal, com aquele salário, aquela moleza, mordomia, deslocamento rápido casa-trabalho, no conforto do ar condicionado do carro…reclamar de quê, para ouvidos do INSS calejados por dramas mais rigorosos?

Para completar o quadro, vim a amar uma moça mais jovem que com o passar do tempo, desejou ter filhos. Como disse o José Abreu, que viveu situação similar, “um sonho de toda mulher, justíssimo e compreensível até por um jumento”.  Senti-me enquadrado e compreendi;  mesmo com os zumbidos que suponho sejam esclerose cerebral.

Renunciar ao Senado e renunciar a Clarisse, me abriram a perspectiva de deixar Brasília e cuidar da minha mãe no Rio de Janeiro. Uma missão que minha irmã julgava ser dela. E seria, não fosse o seu prematuro passamento, ou passagem, como ela chamava.

Sem perspectivas de um trabalho satisfatório, vislumbrei a possibilidade de fazer operações na bolsa de valores com o fito de conseguir um rendimento entre 2 a 3% ao mês do capital investido.

É uma operação basicamente de Venda de opções cobertas por Ações.

Seguinte:  Invisto, digamos R$ 70 mil em ações da Petrobrás. Hoje isso compra algo como 3 mil ações da petroleira. Há um mercado de opções que no fundo é um mercado de aposta. Mas formalmente é um mercado de derivativos;  compra e venda do direito de alguém comprar a ação por um valor determinado num prazo também determinado.

Todo mês, na terceira 2.a feira do mês, vence um desses prazos. A chamada série. São portanto, 12 séries por ano. 

Então, se a ação custa no mercado R$ 24,oo, eu consigo vender para alguém, por algo como R$ 0,70 o direito dele comprar esta minha ação por R$ 26,00 até o próximo vencimento da série. No caso de hoje, até 19/01/2008.

É ou não é uma aposta?

Se até o dia 19/01/2008 a ação estiver abaixo de R$26,00, terei ganho R$0,70 e alguém terá perdido R$ 0,70. No meu caso, esses 0,70 representam 2,9% do capital investido.

Se a ação estiver valendo no dia 19/01/2008 R$ 30,00, eu terei que entregar as ações por R$ 26,00. Nesse caso alguém terá ganho a aposta às minhas custas.

É um maná? Nem tanto.

O problema, sempre tem um problema, é que o esquema tende a limitar meus ganhos quando o mercado é de alta pronunciada. E tende a não preservar o patrimônio quando é de baixa forte.

É muito difícil se manter alheio aos movimentos do mercado, quando você espera tirar dali uma “renda fixa”. São necessárias algumas operações mais estruturadas para se proteger das quedas acentuadas e receber algo das altas repentinas. E calma, muita calma. O exercício da calma requer uma vida boa fora do dinheiro.  Vida aberta aos  próximos e aos amigos.

Resumo: É como se eu tivesse comprado um táxi por R$ 70 mil. Todo mês, esse táxi me rende entre R$ 1.000 e R$ 2.100. O valor do táxi, no entanto está se deteriorando. Presumo que, ao longo do tempo, este táxi, petrobrás, recuperará seu valor. Detalhe, os passageiros são muito chatos.

Outras circunstâncias de vida que me levaram a isso: meus filhos estão criados. Minha mãe precisa de mim por perto para se sentir segura, após dolorosas perdas e alguma insegurança etária.

A convivência, nos blogs e fóruns da internet, é com uma turma majoritariamente reacionária, egoísta e fantasiosa. Então, tenho que buscar os amigos e conversar com o mundo de outras formas para não deixar a contagem de centavos me mediocrizar de todo.

Confesso que só quero voltar a trabalhar no que gosto e com quem gosto. Para eu gostar, respeito é fundamental.

Não escuto bronca. E só assumirei responsabilidades quando estiver me sentindo fisicamente apto.

Tenho esperanças na talassoterapia…. hahaha, é banho de mar…tem muito praticante no Rio de Janeiro…mas, enfim, curou minhas dores de cabeça lacinantes.

Por ora, ainda não estou apto. Talvez porque não tenho seguido a talassoterapia com o devido rigor. Zumbidos ainde persistem assim como uma certa fraqueza geral.

Sigo no blog, alternando os momentos de tensão do mercado de capitais.

Mas pretendo começar a investir em algumas coisas alternativas. Moda e confraria da D.Sylvia estão em ebulição na minha frágil mente especulativa.

Bem, é minha vida. Não recomendo. Sugiro a leitura do texto do Krugmann sobre o Mundo Madoff

Tem diversão ali? Tem, sim senhor. Para quem é calejado nas infindáveis discussões políticas da esquerda, é engraçado ver o combate teórico e prático entre as correntes de pensamento do mercado. Fundamentalistas x Grafistas é apenas uma das divisões. Seitas e picaretas pululam em torno destes rachas. Os caras se xingam, se ameaçam. Se juntar, sai briga.

Em tempo:

A imagem lá de cima ilustra uma matéria escrita por WENDELL JAMIESON no New York Times sobre o filme “It’s a wonderful life”, que no Brasil se chamou “A felicidade não se compra”.

A felicidade não se compra….Um clássico de 1946 que sempre passa na época de festas de final de ano nos EUA. Sucesso de público há décadas.

Wendell diz que muitos gostam do filme pelas razões erradas. Outros nem querem vê-lo por imaginar que seja apenas um melodrama água com açúcar. 

Trata-se, segundo Wendell, de uma estória terrível e asfixiante sobre crescer, abrir mão dos seus sonhos e conviver com gente amarga e de mente pequena.

George  é  o personagem principal, estrelado por James Stewart.

Maravilhosa? Desculpe, George, é uma vida assustadora e patética.

O.K., Wendell, há sempre mais de uma forma de ver as coisas, as narrativas.

Criemos, pois, a nossa.

Publicado em Mercado Financeiro

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